A FÓRMULA DA BABEL INVERTIDA E A PARADIPLOMACIA DA CIDADE DE SÃO PAULO
- Lucas Zanforlin
- 3 de out. de 2025
- 5 min de leitura
PALAVRAS-CHAVE: São Paulo; Urbanização; Equística; Paradiplomacia; Brasil; Imigração; Industrialização; Nicolau Sevcenko.

RESUMO
O artigo em sequência tem por visão a apresentação dos conceitos iniciais de Nicolau Sevcenko e exploração do crescimento populacional e cultural da cidade de São Paulo no século XX. Adiante, busca relação entre os termos citados e os ideais paradiplomáticos e organizações subnacionais.
INTRODUÇÃO
A cidade de São Paulo tem, em momento atual, um dos maiores censos demográficos de toda a América e, consequentemente, do mundo. É incluída como cidade global alfa no Globalization and World Cities Research Network, rede de pesquisas britânica sobre fundamentos da globalização e conurbações urbanas.
Nisto, encontra-se grande passado e iniciações históricas influentes à formação do modus operandi urbanizado do município.

O CATIVEIRO DA BABILÔNIA
O crescimento prodigioso da cidade-capital de São Paulo se teve influente por fator consequencial às grandes imigrações do século XX (SEVCENKO, 2024), movimentada pelo pluralismo cultural das massas amontoadas vindas dos continentes da Europa e Ásia. Estas que, iniciando novo ciclo em embarcações com destino ao país dos trópicos, viriam a se tornar parte integral da composição populacional.
Ainda que, na década de 1920, a Terra da Garoa fosse, por decorrência histórica, menor demograficamente que seus vizinhos continentais, tais como a capital brasileira e a argentina (SEVCENKO, 2024), tornava-se progressivamente claro a magnitude da contínua expansão paulistana à limites nunca vistos no continente sul-americano.
Em vista disto, em Orfeu Extático na Metrópole, Nicolau Sevcenko utiliza dos fluxos históricos da cidade para compará-la ao mito da torre de Babel e, em ligação, denominá-la como “a fórmula da Babel invertida”¹. Fez-se, nisto, a criação de uma nova raça em uma Babel rediviva que não segrega, inobstante, une e completa a missão de sua equivalente passada.
Em contraposto, Sevcenko, de mesma forma, relata as problemáticas da sociedade da mística paulistana ao associá-la a um Cativeiro da Babilônia, em que trabalhadores de origem cultural e racial menos favorecidas pela organização sociocultural da época, em especial aos indígenas originários e a população negra, encontravam-se aprisionadas a um sistema explorador e degradante em meio a explosão imigracionária da Europa convulsionada.
Neste contexto, Nicolau utiliza do cenário pós-guerra e o relaciona às complicações estratificadas das camadas marginalizadas da sociedade paulistana contemporânea, relatando os processos de segregação entre os bairros e distritos da capital paulista em sua formação moderna:
“Para os negros, desde os últimos tempos da escravidão, a cidade era um foco de quilombos e agitação abolicionista, onde o ar recendia a liberdade. Mas a discriminação, a competição em condições desvantajosas com os imigrantes e a brutal repressão policial cedo anuviaram essa perspectiva. Aos caipiras, acuados e pressionados pelo avanço das fazendas, a demanda crescente da cidade poderia oferecer uma alternativa de pequenos serviços e vendas, muito limitados, porém, dados os custos implicados pela concorrência dos “chacareiros” imigrantes, pelos controles oficiais do acesso aos mercados e pela ação inelutável dos açambarcadores.” (SEVCENKO, 2024)
Por deste modo, a fórmula da Babel invertida se torna, portanto, um paradoxo mesopotâmico de proporções metropolizantes. Consistida em segregação racial e cultural e, sincronicamente, integração pluripolar de equísticas opostas no globo.
AS MASSAS POBRES E AMONTOADAS ANSIANDO POR RESPIRAR
Direcionadas pelo fervor de afastamento da Grande Guerra, a imigração veio com força e, junto a esta, veio a industrialização. O Brasil, que participara da Guerra direcionando apoio médico e logístico à Entente, viu-se materialmente intocado pela destruição do outro lado do Atlântico.
Por disto, em meio das transformações da Paulicea, evoluiu, também, o arranjamento econômico dos distritos compositores da cidade. Estes, engrenagens para a industrialização e urbanização da capital bandeirante.
Fez-se assim o distrito do Braz (hodiernamente Brás), da Sé, da Consolação e de variados outros que protagonizaram a avalanche industrial que, outrossim, acompanhou a intensidade das garoas da cidade.

A PARADIPLOMACIA MULTICULTURAL
Em busca de compreensão das estruturas internacionais da cidade de São Paulo, faz-se intrínseco, portanto, ação analítica da paradiplomacia e de seus catalíticos no plano urbano mundial.
Deste modo, caracteriza-se a paradiplomacia no envolvimento de entidades subnacionais na sistemática das relações internacionais (PRIETO, 2009), envolvendo subdivisões de primeiro ou segundo nível².
No Brasil, limita-se pelo modelo federalista centralizado, porém, ainda imponente. Buscando atender áreas das relações internacionais demandadas pelas subdivisões, ainda que não estudadas pelo Ministério das Relações Exteriores (GALLO, 2021).
Assim, destaca-se o posicionamento paulistano, membro da Mercocidades³ desde 1998, como integrador multicultural. Utilizando da pluralidade étnica como ferramenta para aproximação entre outras conurbações do planeta. Exemplo disto, torna-se a lista de cidades-irmãs de São Paulo, englobadas por lei municipal, que decorre em 32 de Chicago até Damasco, iniciando-se, não ignorante à histórica imigração italiana, pela cidade de Milão em 1962.
Destarte, torna-se objetivada a criação de laços diplomáticos subdivisivos com governos respectivos pela Secretaria Municipal de Relações Internacionais, utilizando de princípios culturais como ferramenta essencial. Fez-se, neste sentido, as representações em Guiné-Bissau por parte do governo paulistano, aproveitando-se das raízes lusófonas e do passado histórico lusitano para aceleração de processos internacionais⁴. Estas que, hoje, viabilizam-se ainda mais levadas ao cenário de presidência bissau-guineense da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Mediante isto, a cidade de São Paulo se apresenta locomotiva principal da diplomacia transregional do Sul Global, promulgando cooperação e gestão de valores hereditários pelo aparato cultural do Sistema Internacional. Esclarecendo que, embora englobados pelo Estado, manifestações locais e subnacionais podem ter influência na vida política contemporânea.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conforme explorado, realizou-se estratégia para a substância internacional paulistana utilizar de seu multiculturalismo e fator identitário variado, adentrando organizações intercontinentais e estabelecendo laços estrangeiros essenciais à imagem pública da cidade.
Acima de tudo, ocupou-se de responsabilidade disto a história do povo residente. Processo que, adiante da capitalização industrial, tornou-se brutal e divisório. Tornando São Paulo palco para tragédias étnicas inteiras, conjuntamente que abria espaços para mais dezenas de outras culturas.
Ademais, perpetra-se inerente ao teatro internacional brasileiro o envolvimento de seu maior município na geopolítica, formalizando a bagagem cultural e social do povo miscigenado.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GALLO, Rodrigo; MATTIOLI, Thiago; GARCIA, Tatiana De Souza Leite. Relações Internacionais: Temas Contemporâneos. Boa Vista: IOLE, 2021, p. 21-58. ISBN 978-65-993758-2-8.
SEVCENKO, Nicolau. Orfeu Extático na Metrópole: São Paulo, sociedade e cultura nos frementes anos 20. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
CIDADES-IRMÃS de São Paulo. Secretaria Municipal de Relações Internacionais da Prefeitura de São Paulo, 2025. Disponível em: https://prefeitura.sp.gov.br/web/relacoes_internacionais/w/assuntos_internacion is/146728. Acesso em: 30 set. 2025.
PRIETO, Noé Cornago. Diplomacy and paradiplomacy in the redefinition of international security: Dimensions of conflict and co‐operation. s.l: Routledge, 2009.
SÃO Paulo reforça laços com Guiné-Bissau por meio da assinatura de acordo de cooperação cultural firmado na Biblioteca Mário de Andrade. Secretaria Municipal de Relações Internacionais, 2025. Disponível em: https://prefeitura.sp.gov.br/web/relacoes_internacionais/w/s%C3%A3o-paulo refor%C3%A7a-la%C3%A7os-com-guin%C3%A9-bissau-por-meio-da-assinatura-de-acordo-de-coopera%C3%A7%C3%A3o-cultural-firmado-na-biblioteca-m%C3%A1rio-de-andrade. Acesso em: 03 out. 2025.
¹ O mito da Torre de Babel é contado na Bíblia, livro sagrado para o cristianismo e outras religiões, como pretexto das manifestações diversas em questões linguísticas e culturais da humanidade. Neste, a raça humana, ao tentar edificar uma torre para alcançar o reino divino, teria sido punida e dividida defronte à incapacidade de comunicação entre os construtores.
² Respectivamente, no Brasil, unidades federativas e municípios.
³ Redes de governos locais da América Latina.
⁴ Referente a assinatura de acordo de cooperação cultural firmado na Biblioteca Mário de Andrade no dia 13 de agosto de 2025.






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