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TRUMP, CANAL DO PANAMÁ E O IMPERIALISMO

PALAVRAS-CHAVE: Panamá; China; Estados Unidos; Canal; Imperialismo; Acordos; Trump.


O Canal do Panamá (Foto: Stan Sheb/Wikimedia Commons)
O Canal do Panamá (Foto: Stan Sheb/Wikimedia Commons)

A HISTÓRIA DO CANAL DO PANAMÁ

O Panamá fazia parte da Colômbia até o início do século 20, quando declarou independência em 3 de novembro de 1903, graças ao interesse estadunidense pelo projeto do Canal. Os Estados Unidos foram extremamente importantes ao apoiar a independência do Panamá, como afirma a matéria da BBC News Mundo:


"E é quase 100% certo, tão certo quanto possível ao analisar os documentos históricos, que, se os Estados Unidos não tivessem tomado esta decisão, o Panamá ainda hoje faria parte da Colômbia".

O Canal representava o ápice da influência americana na região, garantindo não apenas rotas comerciais privilegiadas, mas também um pivot estratégico militar. O país, no entanto, não se beneficiou do canal escavado até 1999, quando a hidrovia, que era administrada pelos americanos, foi passada ao Estado Panamenho. A rota interoceânica, cuja passagem encurtou a distância das rotas marítimas entre o Oceano Atlântico e Pacífico, é responsável por 6% do comércio mundial e se tornou uma fonte gigantesca de riqueza, conectando mais de 140 rotas marítimas e 1.700 portos em 160 países.

Segundo o economista Marco Fernández, da GlobalSource Partners, além do Panamá, "os países que mais se beneficiaram do canal são os Estados Unidos e a China”.


INFLUÊNCIA CHINESA

Os laços entre Panamá e China vêm crescendo ao longo dos anos. O Panamá tem adotado uma postura pragmática, colocando seus interesses econômicos acima de alinhamentos políticos tradicionais. O país busca ativamente investimentos e parcerias em múltiplas frentes, atraído pela capacidade da China de oferecer financiamento em larga escala com desembolso ágil — uma vantagem percebida em relação a credores ocidentais, como Estados Unidos. O marco foi 2017, quando o Panamá, sob o governo de Juan Carlos Varela, rompeu relações diplomáticas com Taiwan e estabeleceu laços formais com a China, aderindo simultaneamente à sua ambiciosa Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), cujo o presidente Mulino anunciou em 2025 que não renovaria o acordo. A decisão foi tomada após pressões dos Estados Unidos para reduzir a influência de Pequim sobre o Canal do Panamá.

Entre 2017 e 2021, as exportações panamenhas para a China aumentaram de US$ 43 milhões para mais de US$ 1 bilhão.

A China não busca controlar o Canal em si, mas sim conectá-lo a sua rede global. Investimentos massivos foram direcionados para portos em ambas as extremidades: a ampliação do porto de Margarita, no lado atlântico, pela empresa chinesa Hutchison Ports, e o desenvolvimento de um mega-porto no Pacífico, em Corozal. O objetivo é transformar o Panamá no hub logístico definitivo para as Américas, com tecnologia, operação e padrões chineses.


OS ESTADOS UNIDOS

Washington observou o estreitamento de laços entre Panamá e China com cautela. Desde que Donald Trump iniciou seu novo mandato, ele deixou claro sua intenção de “retomar o Canal”. Disse também que o mesmo estava sob “influência chinesa”. Além disso, defendeu que os EUA deveriam usar o Canal de graça.

Em fevereiro, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, escolheu o Panamá como primeiro destino de sua turnê à América Central e Caribe, o que nunca havia acontecido antes. Depois, o presidente panamenho José Raúl Mulino divulgou um memorando de entendimento assinado entre o Panamá e os EUA, autorizando que “pessoal dos EUA possa ficar temporariamente no território da República do Panamá”, além de prever exercícios militares e outras formas não especificadas de “cooperação”, como conta reportagem de Gabriel Vera Lopes ao Brasil de Fato:


“O acordo prevê o envio de tropas e contratados militares dos EUA (um eufemismo para mercenários) para o território panamenho por três anos. Ele permite a presença militar dos EUA em aeroportos e em várias instalações de defesa nacional. A assinatura do acordo aconteceu durante visita do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth.”

Hegseth admitiu que a China não opera o Canal (diferente das alegações anteriores de Trump) mas afirmou que a presença chinesa representaria um “risco de espionagem” na região.

A reportagem de Santiago Vanegas pela BBC conta que “Políticos opositores ao presidente panamenho,José Raúl Mulino, e especialistas independentes afirmam que a decisão enfraquece o princípio de neutralidade do Canal, consagrado no tratado de 1977. E também abre as portas para que os Estados Unidos retomem o controle das bases militares, que o Panamá recuperou com muita dificuldade.”


O IMPERIALISMO DE TRUMP

As declarações e ameaças feitas pelo então presidente Donald Trump sobre o Canal do Panamá refletem uma visão imperialista e uma postura que busca minar a autonomia do país e da região. Elas desconsideram tratados bilaterais solenes e o direito internacional. Questionar a soberania do Panamá sobre seu território e seu principal ativo econômico é um ato unilateralista e coercitivo. Trump frequentemente vinculou a questão do canal a uma suposta necessidade de "segurança" que apenas os EUA poderiam garantir. Essa retórica é clássica do imperialismo: cria uma ameaça vaga no caso, ameaça chinesa) para justificar a necessidade de controle, retirando a agência do país soberano para gerir seus próprios assuntos e defesa.

Quando uma potência externa ameaça reaver um símbolo máximo da soberania de um país latino-americano, ela envia uma mensagem clara a toda a região: os acordos são descartáveis, a soberania é relativa e os interesses geopolíticos dos EUA prevalecem sobre todo e qualquer direito.

Essa postura do presidente Trump não devem ser encarada como vazia. Ela visa reafirmar uma hierarquia de poder onde os EUA decidem, e o Panamá e a região obedecem, minando décadas de avanço diplomático e de consolidação da soberania na América Latina. É uma tentativa de regressar a um modelo de relações internacionais baseado na força e no domínio, não no respeito e na cooperação entre nações iguais.


REFERÊNCIAS

  • DUAN, J. Great-power competition in the Panama Canal. Disponível em: <https://www.iiss.org/online-analysis/online-analysis/2025/04/great-power-competition-in-the-panama-canal/>. Acesso em: 6 dez. 2025.

  • Quanto controle a China realmente tem sobre o Canal do Panamá . Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/01/21/quanto-controle-a-china-realmente-tem-sobre-o-canal-do-panama.ghtml>. Acesso em: 6 dez. 2025.

  • Quanto ganha o Panamá com seu famoso canal (e quem se beneficia desse lucro). Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50988193>. Acesso em: 6 dez. 2025.

  • Por que o Panamá se separou da Colômbia – e qual foi o papel dos EUA. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/c6perxnj2kro>. Acesso em: 6 dez. 2025.

  • IYER, K. Trump: Navios dos EUA não devem pagar para usar canais do Panamá e de Suez. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/trump-navios-dos-eua-nao-devem-pagar-para-usar-canais-do-panama-e-de-suez/>. Acesso em: 6 dez. 2025.

  • VANEGAS, S. “Panamá retorna ao colonialismo da quinta fronteira com novo acordo assinado com os EUA sobre Canal”. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1mekn74rd3o>. Acesso em: 6 dez. 2025.

  • YUAN, S. A China realmente controla o Canal do Panamá, como diz Trump? Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/c627jkx8r2lo>. Acesso em: 6 dez. 2025.

  • VERA LOPES, G. Governo panamenho deixa EUA ocuparem militarmente o Canal do Panamá. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2025/04/21/o-governo-panamenho-autoriza-a-militarizacao-do-canal-do-panama-pelos-eua/>. Acesso em: 6 dez. 2025.

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