A POLÍTICA EXTERNA DOS EUA PARA A AMÉRICA DO SUL E SEUS IMPACTOS NA VENEZUELA NO SÉCULO XXI
- Milena Assunção

- 19 de dez. de 2025
- 7 min de leitura
Palavras-chave: América do Sul, Política Externa dos Estados Unidos, Venezuela, Autonomia Regional, Hegemonia, Petróleo, Intervencionismo

A trajetória dos países da América do Sul pode ser apresentada de diferentes formas e pode estar associada a duas fases distintas na agenda das relações internacionais no contexto dos anos 1990 até 2010 – de baixo perfil e autonomia. Em primeira instância, pode-se afirmar que o período de autonomia está relacionado com a reemergência de projetos políticos de esquerda durante os anos 2000 (PECEQUILO, 2013, p. 101).
Em segunda instância, é necessário apresentar o baixo perfil como uma fase de prevalência das iniciativas políticas dos Estados Unidos, exacerbando sua posição hegemônica no continente. Tal cenário ocorre devido a três fatores, sendo estes: a crise político-econômica latino-americana decorrente dos anos 1980; o fim da Guerra Fria; e o ativismo norte-americano. Sendo assim, seria errôneo afirmar que tal realinhamento teria ocorrido de forma natural, visto que a percepção de vulnerabilidade da região, atrelada ao temor de isolamento no pós-bipolaridade e à busca de realinhamento ao Norte – pela tentativa de assegurar um novo tipo de projeção internacional –, demandou essa subordinação. Isso porque os países entendiam que essa seria a única opção para o desenvolvimento econômico, sustentada pela premissa da unipolaridade após a queda do Muro de Berlim (PECEQUILO, 2013, pp. 101–102).
Por ser um país considerado uma superpotência e estar inserido no mesmo continente, os Estados Unidos se apresentaram como referencial para a América do Sul, que, por sua vez, procurava na agenda norte-americana uma “válvula de escape”. Acrescenta-se a isso o referencial político-ideológico estadunidense, por ser símbolo de prosperidade e crescimento. O discurso utilizado durante esse período tornou-se hegemônico entre lideranças latino-americanas, como Fernando Collor de Mello no Brasil (1990–1992), Carlos Salinas no México (1988–1994) e Carlos Menem na Argentina (1989–1999). A premissa era de que o Primeiro Mundo, bem como a modernização, eram sinônimos de alinhamento à agenda dos Estados Unidos, composta por três pilares: o Consenso de Washington, a integração regional e os novos temas (tráfico de drogas, imigração, direitos humanos, boa governança, entre outros) (PECEQUILO, 2013, p. 102).
Com isso, a política interna e externa baseada nesses preceitos colocaria fim à Doutrina Monroe – estabelecida para sustentar a lógica da “América para os americanos”. Dessa forma, iniciou-se uma era de subordinação, com constante intervenção e assimetrias do Norte sobre o Sul (PECEQUILO, 2013, p. 102).
Impactos Econômicos e Institucionais nos Anos 1990
Alguns dos efeitos que assolaram a América do Sul na metade dos anos 1990 foram os desequilíbrios econômico-sociais, a desaceleração do crescimento e o aumento da exclusão. Países como Argentina, Bolívia, Equador e Venezuela passaram por dificuldades no âmbito político-institucional, ao passo que países como Brasil e Chile enfrentaram pressões econômicas, com pouca ajuda estadunidense no auxílio à recuperação do desenvolvimento da região (PECEQUILO, 2013, p. 103).
A América do Sul passou a ser vista pelos Estados Unidos como um espaço secundário e funcional, uma “válvula de escape” para seus interesses econômicos e de baixo custo político, expressa em propostas como a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) e a Iniciativa para as Américas, que buscavam assegurar mercados e influência sem grandes concessões. Contudo, tais iniciativas careciam de apoio interno nos Estados Unidos, gerando recuos desde os governos Bush pai e Clinton, que optaram por acordos bilaterais com países menores e já interdependentes, como Chile e Peru, tendo o NAFTA (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) como modelo de integração de baixo custo que apenas consolidava relações preexistentes (PECEQUILO, 2013, pp. 103–104).
Retomada da Autonomia Regional e Ascensão da Esquerda
Consequentemente, no final dos anos 1990, já é possível observar a retomada da autonomia regional, em virtude dos projetos políticos de esquerda. Além disso, tal processo promove também o reordenamento regional do espaço hemisférico, dando destaque à Venezuela de Chávez e ao Brasil de Lula, exacerbando a descontinuação da América do Sul como subsistema de crescente relevância por meio do desenvolvimento de uma política interna e externa de alto perfil. De modo geral, esse novo período é marcado pela ascensão de governos populares ao poder, pela retomada de uma pauta doméstica de desenvolvimento e pela atenção a pautas sociais (PECEQUILO, 2013, p. 104).
No geral, a redemocratização da América do Sul, iniciada entre as décadas de 1970 e 1980, esteve acompanhada pela implementação de reformas neoliberais. No entanto, como mencionado, diversas crises políticas e econômicas foram desencadeadas em virtude da grande quantidade de mobilizações sociais contrárias a essas políticas. Consequentemente, os anos 2000 representaram a ascensão de governos de esquerda e centro-esquerda, os quais potencializaram seus valores democráticos, culminando na eleição de Hugo Chávez à presidência da Venezuela, em 1998.
Sua eleição marcou uma ruptura profunda na trajetória política da Venezuela, encerrando quatro décadas de predominância do sistema bipartidário do Pacto de Punto Fijo. Ao assumir o governo em meio a um contexto de recessão econômica, enfraquecimento da participação popular e crise de legitimidade institucional, Chávez apresentou como objetivo central a reorganização das instituições políticas e a proposta de uma refundação da república (COELHO; ROSA; MENDES, 2021, p. 138).
Beneficiando-se da abundância em matérias-primas e de uma das maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo, a Venezuela utilizou o ciclo de alta dos preços internacionais das commodities (2003–2008) para financiar programas sociais e impulsionar uma política externa voltada à projeção internacional do regime chavista e à integração energética regional e extrarregional. Contudo, a partir de 2013, com o falecimento de Hugo Chávez, o país passou a enfrentar uma inflexão profunda em seu quadro político, econômico e social, marcada pela queda da produção petrolífera e pela deterioração dos preços das commodities. Esse processo ocorreu simultaneamente ao aprofundamento da dependência da economia venezuelana em relação às exportações de petróleo, tendência intensificada durante o governo de Nicolás Maduro, o que comprometeu a continuidade das transformações sociais anteriores e restringiu significativamente a margem de atuação internacional do novo governo (COELHO; ROSA; MENDES, 2021, p. 138).
Maduro, Crise de Legitimidade e Pressões Externas
A morte de Hugo Chávez, liderança de forte carga simbólica e emocional para amplos setores da sociedade venezuelana, representou um período crítico para o projeto político chavista e para os rumos do país. Seu sucessor, Nicolás Maduro – ex-membro do Movimiento V República, ex-presidente da Assembleia Nacional e chanceler durante grande parte do governo Chávez – assumiu o compromisso de dar continuidade a esse legado. No mesmo ano, Maduro venceu as eleições presidenciais de 2013, em um processo marcado por elevada polarização, resultado estreito e amplas contestações quanto à sua legitimidade, abrindo um novo ciclo político caracterizado por continuidades e rupturas em relação ao chavismo (COELHO; ROSA; MENDES, 2021, p. 144).
A perda de popularidade de Nicolás Maduro, constantemente comparado a Hugo Chávez tanto no plano interno quanto no internacional, evidenciou as fragilidades de sua liderança. Conforme analisado por Margarita López Maya (2016), a combinação entre a instabilidade prolongada do mercado petrolífero, a ausência de carisma e a pressão política da oposição, comprometeu o desempenho do governo. A partir de 2014, a queda dos preços internacionais do petróleo agravou esse quadro, resultando no enfraquecimento do apoio eleitoral, na redução da popularidade presidencial e no surgimento de dissidências internas. Tal processo foi intensificado pela histórica dependência da economia venezuelana em relação à exportação de petróleo – característica que nunca foi superada –, o que limitou a sustentabilidade das políticas sociais e do projeto bolivariano e abriu espaço para pressões externas de países interessados no controle e acesso aos recursos energéticos do país (COELHO; ROSA; MENDES, 2021, p. 146).
Reconfiguração da Política Externa dos EUA e a América do Sul
Para além do debate teórico apresentado por Pecequilo (2013) sobre as fases de baixo perfil e autonomia na América do Sul, recentemente foi possível visualizar uma tentativa de reconfiguração do padrão de relacionamento entre os Estados Unidos e a América do Sul, marcada pelo retorno de uma lógica hegemonista e de reafirmação de esferas de influência. A análise de Alberto Pfeifer, na CNN Brasil, sobre a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos aponta para a centralidade do Hemisfério Ocidental como espaço prioritário da política externa norte-americana, reforçando princípios clássicos associados à Doutrina Monroe, nos quais a região é concebida como área natural de projeção de poder, segurança e acesso a recursos estratégicos. Tal movimento sinaliza a descontinuidade do multilateralismo e privilegia relações bilaterais assimétricas, reaproximando-se da fase de “baixo perfil” latino-americano descrita nos anos 1990, em que as iniciativas políticas dos Estados Unidos condicionavam as margens de autonomia regional (CNN BRASIL, 2025).
Nesse contexto, a América do Sul passa a ser percebida, de forma mais proeminente, como um espaço funcional aos interesses estratégicos norte-americanos. A ênfase na reindustrialização dos Estados Unidos, no controle de cadeias produtivas e no acesso a recursos naturais – como energia, minerais críticos e produção agrícola – dialoga diretamente com a concepção da região como “válvula de escape”. As Américas são enquadradas como plataforma de investimento, distribuição de recursos e contenção de ameaças transnacionais, como imigração irregular e narcotráfico, reforçando assimetrias estruturais entre Norte e Sul e limitando a capacidade de formulação de projetos autônomos por parte dos países latino-americanos (CNN BRASIL, 2025).
Venezuela no Cálculo Estratégico
Os recentes ataques do governo de Donald Trump contra a Venezuela e, principalmente, o destaque à possibilidade de ataques aéreos por parte do governo norte-americano explicitam o caráter coercitivo dessa nova estratégia. A escalada de pressão sobre o governo de Nicolás Maduro – iniciada com sanções financeiras, isolamento internacional e restrições ao setor petrolífero – pode evoluir para uma intervenção militar direta, representando um aprofundamento da lógica intervencionista historicamente presente nas relações conduzidas pelos Estados Unidos. Tal postura se insere no padrão de subordinação e intervenção descrito por Pecequilo para o período de hegemonia norte-americana, no qual crises internas e vulnerabilidades econômicas são instrumentalizadas para justificar ações externas que restringem a soberania dos Estados latino-americanos e atendem às necessidades internas de recursos dos Estados Unidos (CNN BRASIL, 2025).
Por fim, a articulação entre o referencial teórico e as análises jornalísticas sugere que a atual política externa norte-americana tende a enfraquecer os avanços de autonomia regional construídos nos anos 2000, especialmente por governos de esquerda e centro-esquerda. Ao priorizar o interesse nacional, o bilateralismo e o uso de instrumentos coercitivos, os Estados Unidos contribuem para a reedição de um ambiente marcado por assimetrias de poder, conflitos internos, pressões externas e restrições à integração regional, colocando em questão os projetos de desenvolvimento autônomo e de afirmação política da América do Sul no sistema internacional.
REFERÊNCIA
CNN Brasil. Especialista: Trump indica possibilidade de ataques aéreos na Venezuela. CNN Brasil, 16 dez. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/especialista-pronunciamento-de-trump-indica-possibilidade-de-ataques-aereo/. Acesso em: 17 dez 2025.
CNN Brasil. EUA reforçam interesse nacional e esferas de influência, diz Pfeifer. CNN Brasil, 16 dez. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/eua-reforcam-interesse-nacional-e-esferas-de-influencia-diz-pfeifer/. Acesso em: 17 dez 2025.
COELHO, André; ROSA, Beatriz; MENDES, Edson. MADURO, CHAVISMO E BOLIVARIANISMO: CONTINUIDADE OU RUPTURA?. Desigualdade e Diversidade, v. 21, n. 21, 2021.
PECEQUILO, Cristina Soreanu. A América do Sul como espaço geopolítico e geoeconômico: o Brasil, os Estados Unidos e a China. Carta Internacional, v. 8, n. 2, p. 100-115, 2013.






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