OS IMPACTOS DO GOVERNO TRUMP NA COPA DO MUNDO E NAS OLIMPÍADAS
- Luiza Nunes Tereza

- 7 de out. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 24 de out. de 2025
Palavras-chaves: Trump; Copa do Mundo; Olimpíadas; Fifa; tarifas; imigração; México; Canadá; Estados Unidos; Hugo Calderano

Introdução A realização de megaeventos esportivos como a Copa do Mundo da FIFA e os Jogos Olímpicos representa não apenas uma vitrine internacional para os países-sede, mas também um reflexo direto de suas políticas internas e das suas relações exteriores. Nos Estados Unidos, a realização desses dois eventos em sequência (a Copa do Mundo de 2026 e os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028) coincide com um momento de grande polarização política e com a retorno de Donald Trump à presidência. Desenvolvimento
Durante seu primeiro mandato e inicio do segundo, Donald Trump adotou uma política migratória marcada pela retórica da ameaça e pela securitização da imigração, conforme demonstram Contrera, Mariano e Menezes (2022). O governo utilizou discursos que apresentavam imigrantes, especialmente latino-americanos e muçulmanos, como ameaças à segurança nacional, à identidade cultural e ao bem-estar econômico dos norte-americanos. Medidas como o Muslim Ban, a separação de famílias na fronteira com o México e o fim de políticas de acolhimento de refugiados consolidaram uma política externa excludente e identitária.
A utilização da retórica do “nós contra eles” foi analisada também por Bochenek e Stein (2019), que evidenciam como os discursos de Trump constroem uma imagem do imigrante como inimigo interno e reforçam políticas xenofóbicas com base em escolhas ideológicas. Tais práticas têm profundas implicações para a posição internacional dos EUA, desafiando princípios fundamentais do direito internacional humanitário e da diplomacia multilateral.
Com a aproximação da Copa do Mundo de 2026 e das Olimpíadas de 2028, diversas organizações internacionais expressaram preocupação com a continuidade ou o agravamento das políticas migratórias restritivas de Trump. Conforme noticiado pela Veja (2025), mais de 90 organizações civis assinaram uma carta alertando a FIFA sobre a necessidade de garantias aos direitos humanos durante a Copa, especialmente na entrada de atletas, jornalistas, torcedores e turistas estrangeiros.
O caso recente do atleta Hugo Calderano, impedido de entrar nos EUA por ter visitado Cuba, conforme relatado por G1 e GE (2025), exemplifica os impactos concretos das políticas migratórias e de segurança em vigor. Já nas Olimpíadas, mesmo com garantias formais do Comitê Olímpico Internacional de que as restrições migratórias não afetariam a realização dos jogos, permanece a incerteza quanto à viabilidade de participação plena de delegações de países afetados por medidas unilaterais de Trump, como muçulmanos e latino-americanos (CNN Brasil, 2025).
Além disso, em meio às polêmicas envolvendo vistos e restrições de entrada, Trump tem adotado uma postura ambígua: ao mesmo tempo em que impõe barreiras migratórias que afetam atletas e delegações, ele também faz apelos públicos convidando torcedores de todo o mundo para prestigiar tanto a Copa de 2026 quanto as Olimpíadas de 2028 (CNN Brasil, 2025). Essa contradição revela a estratégia de Trump de explorar os megaeventos como vitrine política, mesmo diante das críticas de organizações internacionais e da incerteza sobre a plena participação global.
Além da questão migratória, o contexto de realização da Copa de 2026 também se vê impactado pela política econômica externa de Trump. Em declarações recentes, o ex-presidente caracterizou as tensões comerciais com o México e o Canadá como parte da “emoção” que a Copa traria ao continente, associando tarifas e disputas diplomáticas a um tipo de patriotismo econômico (UOL, 2025; Bloomberg Línea, 2025). Ao prometer uma “Copa emocionante”, Trump tenta capitalizar sobre a retórica do confronto como demonstração de força política e soberania econômica, mesmo que isso comprometa a harmonia esperada entre os países coorganizadores do evento.
Apesar de negar publicamente a existência de tensões com México e Canadá em relação aos preparativos da Copa, Trump adotou uma postura ambígua que gera incerteza no cenário internacional (CNN Brasil, 2025). A guerra tarifária imposta a produtos canadenses e mexicanos levanta dúvidas sobre a cooperação logística entre os três países, fundamentais para a organização de um evento multinacional como o Mundial da FIFA.
Essa atitude compromete a ideia da Copa como um projeto de integração regional, prejudicando os canais diplomáticos de confiança mútua. Para analistas, tal cenário revela que a agenda protecionista de Trump não se limita ao campo econômico, mas espelha uma lógica isolacionista que afeta a própria construção de consensos multilaterais.
No campo das Relações Internacionais, a instrumentalização da política migratória e econômica como ferramentas de afirmação nacionalista compromete a imagem dos Estados Unidos como defensor da democracia e da liberdade. Pode ainda afetar diretamente as relações com parceiros estratégicos, especialmente com os países latino-americanos e africanos, cujos atletas e turistas participarão ativamente dos dois eventos esportivos.
O discurso e as práticas de “tolerância zero” à imigração, analisadas por Nascimento (2019), somadas às barreiras comerciais, configuram um cenário de hostilidade estrutural, incompatível com o espírito de cooperação e universalismo dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo. O soft power norte-americano, que já se encontra fragilizado no sistema internacional, tende a sofrer novos reveses diante da imagem de um país fechado, seletivo e beligerante.
Conclusão
A realização da Copa do Mundo de 2026 e das Olimpíadas de 2028 nos Estados Unidos, sob gestão de Donald Trump, evidencia profundas contradições entre os princípios esportivos da inclusão e as práticas políticas internas do país. A retórica da ameaça, a securitização da imigração e as disputas comerciais com países coorganizadores revelam um padrão de comportamento que mina a credibilidade diplomática dos EUA e fragiliza sua posição nas instituições internacionais.
Dessa forma, os efeitos do governo Trump ultrapassam as fronteiras nacionais e incidem diretamente na capacidade dos Estados Unidos de se apresentarem como uma liderança global confiável, democrática e aberta à cooperação. Em um mundo cada vez mais interdependente, megaeventos esportivos exigem mais do que infraestrutura: demandam compromisso político com a paz, os direitos humanos e o multilateralismo. A gestão de Trump, marcada pelo nacionalismo econômico e pelas políticas excludentes, representa, nesse sentido, um “gol contra” para a diplomacia norte-americana.
Referências Bibliográficas
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