A ASCENSÃO DO NACIONALISMO E SEUS IMPACTOS NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
- Luiza Nunes Tereza

- 3 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Palavras chaves: Nacionalismo; Globalização; Populismo; Relações Internacionais; Soberania Nacional; Multilateralismo.

Introdução
Nas últimas décadas, observa-se uma reconfiguração do cenário político mundial marcada pela ascensão de partidos e líderes nacionalistas em diferentes continentes. Fenômenos como a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, o fortalecimento de Viktor Orbán na Hungria, de Narendra Modi na Índia e a expansão da extrema-direita na Europa e na América Latina demonstram o crescimento de um discurso político centrado na soberania nacional, na identidade cultural e na rejeição à globalização. Esse movimento também aparece em contextos recentes, como o avanço da direita nacionalista na França e na Alemanha, a vitória de candidatos conservadores na Polônia e no Japão, e o aumento do nacionalismo religioso em países como Índia e Brasil.
Esse cenário representa uma reação à crise do multilateralismo e às promessas não cumpridas da globalização. O nacionalismo, que historicamente esteve na base da formação dos Estados modernos, ressurge como força política que busca resgatar o controle do Estado e proteger as fronteiras nacionais diante de um mundo percebido como ameaçador. Essa dinâmica, entretanto, tem impactos diretos sobre o sistema internacional e sobre as relações entre os Estados, afetando a cooperação global e a estabilidade política internacional
Desenvolvimento
Segundo Bresser-Pereira (2008), o nacionalismo é uma ideologia central na formação e manutenção dos Estados modernos, pois expressa o sentimento de destino comum que garante a coesão necessária à existência da nação. Trata-se de uma ideologia que valoriza a autonomia, a segurança e o desenvolvimento nacional. No entanto, quando radicalizado, o nacionalismo tende a se converter em intolerância e exclusão, especialmente quando assume caráter étnico ou xenófobo. O autor distingue ainda entre o nacionalismo das nações centrais, muitas vezes disfarçado sob o discurso do “internacionalismo”, e o das nações periféricas, que pode se manifestar tanto como resistência ao imperialismo quanto como fechamento político e econômico.
De acordo com Carvalho Junior e Massaro (2023), há um contraste evidente entre o ideal nacionalista e o processo de integração internacional. Enquanto a integração busca fortalecer a cooperação entre os Estados em prol da paz, da democracia e dos direitos humanos (como exemplificado pela criação da ONU, da União Europeia e do MERCOSUL), o nacionalismo enfatiza a soberania absoluta e o interesse exclusivo do Estado-nação. Os autores afirmam que “o nacionalismo é dissecado, observando os detalhes de sua natureza que vão de encontro à maior assimilação dos países no campo internacional” (CARVALHO JUNIOR; MASSARO, 2023, p. 24), evidenciando sua incompatibilidade com a lógica coletiva das relações internacionais.
Para Tatiana Vargas Maia (2023), o nacionalismo deve ser compreendido como uma ideologia que prescreve a coincidência entre a unidade política e a unidade nacional, fundamentada na tríade “unidade, identidade e autonomia”. A autora destaca que os momentos de instabilidade e crise (como os ataques de 2001, a crise financeira de 2008 e a recessão global pós-2016), funcionam como gatilhos para o fortalecimento de discursos nacionalistas. Nessas conjunturas, o nacionalismo oferece respostas simplificadas para problemas complexos, propondo o fechamento de fronteiras, o protecionismo econômico e a rejeição de organismos multilaterais.
Essa tendência é observada em diferentes regiões. No Reino Unido, o Brexit simboliza a rejeição da integração europeia e o retorno à política soberana (VALOR ECONÔMICO, 2025). Nos Estados Unidos, o nacionalismo econômico de Trump manifestou-se em políticas protecionistas e em choques tarifários (VEJA, 2025). Na Europa, partidos de extrema-direita ganham espaço, como na Alemanha e na França, defendendo o controle migratório e o fortalecimento do Estado-nação (CNN BRASIL, 2025; GAZETA DO POVO, 2025). Já na Ásia, o nacionalismo hindu promovido por Modi, na Índia, associa religião e política, reforçando divisões internas (REVISTA MOVIMENTO, 2025). Na América Latina, o nacionalismo cristão e conservador se fortalece, influenciando as políticas de países como Brasil e Estados Unidos (OPEU, 2025).
Vargas Maia (2023) também relaciona o nacionalismo à ascensão de líderes populistas carismáticos, como Trump, Bolsonaro, Orbán e Erdoğan. Esses líderes utilizam o discurso nacionalista para mobilizar politicamente o povo, criando uma narrativa anti-elitista e anti-globalista. Contudo, a autora alerta que “populismos nacionalistas são também antidemocráticos”, uma vez que concentram poder nas mãos de líderes que frequentemente deslegitimam instituições e opositores políticos (VARGAS MAIA, 2023, p. 227). Assim, o nacionalismo, quando instrumentalizado por regimes populistas, pode fragilizar o Estado de Direito e ameaçar a própria democracia.
A ascensão do nacionalismo no século XXI revela tanto uma resposta às frustrações da globalização quanto uma ameaça aos princípios que sustentam a cooperação internacional. Como observam Carvalho Junior e Massaro (2023), a ideologia nacionalista se opõe à integração ao priorizar o interesse nacional em detrimento do coletivo, o que dificulta a resolução de problemas globais, como as crises ambientais e migratórias. Bresser-Pereira (2008) reforça que o nacionalismo é inevitável nas relações internacionais, mas sua radicalização pode gerar isolamento e conflito. Já Vargas Maia (2023) demonstra que o nacionalismo contemporâneo, ao se fundir com o populismo, desafia as instituições democráticas e o multilateralismo.
Conclusão
Dessa forma, o desafio contemporâneo das relações internacionais é equilibrar a defesa legítima da soberania nacional com a necessidade de cooperação global. A sobrevivência do sistema internacional depende de que o nacionalismo deixe de ser uma barreira e passe a ser reinterpretado como instrumento de fortalecimento interno aliado à solidariedade internacional. Somente assim será possível construir um mundo em que o respeito à identidade nacional caminhe junto à paz e à cooperação entre os povos.
Referências Bibliográficas
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