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O FASCÍNIO DA TECNOCRACIA E SEU PERIGO

Palavras-Chave: tecnocracia, aristocracia, democracia, liberdade, especialização.

Hasiukiewicz, 2023
Hasiukiewicz, 2023

Introdução 

Ver o mundo atual como catastrófico ou a caminho de, tornou-se, infelizmente, um entendimento comum e recorrente, não sem seus motivos, aquecimento global, polarização política, conflitos internacionais, entre outro, a lista de problemas é longa e tende a variar conforme a opinião política normalmente. Quando se discutem problemas políticos, ou eleitorais, é um argumento comum culpar o sistema, as leis e não necessariamente os indivíduos, seguindo essa visão, uma solução ocasionalmente apresentada é a da tecnocracia, a qual até alguns anos me era completamente desconhecida, e apesar de ainda hoje não ser pessoalmente minha favorita, não consigo negar a relevância de um debate sobre o método tecnocrata. 

Dessa forma, por esse artigo me proponho a entender apropriadamente, nem que de maneira superficial, a origem da tecnocracia, suas ideias, possíveis alterações, vantagens, desvantagens, e posicionamento na política moderna. 


Contextualização 

Tendo se popularizado no começo do século XX nos EUA, especificamente nos anos 30, a Tecnocracia ganhou os holofotes da sociedade como uma prevenção à grande depressão, para que tais erros, como aqueles que resultaram na crise, não ocorressem novamente. Apesar de vir do berço político progressista da época, a tecnocracia foi inicialmente proposta e teorizada anteriormente por Frederick W. Taylor, engenheiro estadunidense notório por conceituar o modelo Taylorista de produção, e Thorstein Veblen, economista e sociólogo, que, assim como outros empresários contemporâneos que foram vozes importantes nos anos iniciais da tecnocracia. Sua conceptualização mesmo que de maneira arcaica, foi proposta por Platão na sua obra “A República” onde para ele, o filosofo, que é aquele sempre em busca de conhecimento e bem versado em diversas áreas do saber, deveria governar. 

A tecnocracia como veio a ser discutida no século XX, em sua essência, sugere a estruturação de um governo gerenciado por técnicos, especialistas, ou, pessoas qualificadas na área como um todo. Isso se contrapõe à democracia (demos), onde o povo decide quem governa, enquanto na tecnocracia (techne), o mais qualificado governa. Se a democracia é o governo do povo, a tecnocracia é o governo dos técnicos. 

O governo democrático tornou-se sinônimo com pluralidade partidária para muitos, uma vez que sua grande vantagem é apresentar uma variedade de competidores, a serem escolhidos, os quais buscam agradar e satisfazer a população, à fim de obter o maior número de votos possíveis, para assim serem eleitos. O voto feito por cada cidadão representa sua autorização para que aquele individuo, competidor, apresentado pelo sistema democrático, possa governar. Com votos o bastante, tem-se um novo governante o qual apesar de tipicamente não unânime, tende a ser eleito pela maioria. 

Enquanto em contraste, dentro de um sistema tecnocrata absoluto, o governante é apontado com base em sua capacidade técnica, profissionalização, e esperteza como um todo, para que possa executar sua política de maneira exata e suportada por dados científicos a fim de obter resultados exclusivamente exatos, precisos e positivos. Em uma tecnocracia pura, a urna de eleição, tanto quanto os partidos políticos tornam-se obsoletos, o governante seria apontado por um grupo de intelectuais, técnicos também qualificados, ou talvez, haveria um concurso ou disputa para decidir quem seria o especialista governante. 


Problematização 

A cada dia que passa, os problemas da sociedade tornam-se mais complexo, e a cada eleição, o novo governo é encarregado de lidar com problemas que aparentam estar sempre escalando, um conhecimento técnico seria necessário para lidar com as questões longas, impactantes e intrínsecas que assombram a sociedade moderna. Porém a que custo? Essa é a questão moral posta perante a proposta tecnocrata, educação e conhecimento tendem a ser positivos e bem-vistos, porém há claras falhas nessa forma de governo. Apesar da insatisfação com governos ou até mesmo com o sistema democrático como um todo ser válida, justificável e racional, deve-se tomar cuidado para não cair cegamente na proposta tecnocrática sem analisá-la adequadamente. Muitos tendem a enxergar a tecnocracia como uma opção falha, porém preferível acima da democracia. 

Entretanto, a semelhança entre a tecnocracia e aristocracia é inquietante, se em uma aristocracia o poder é controlado por um pequeno grupo de indivíduos, os quais tendem a possuir a maioria, se não todas, as riquezas e luxurias de sua sociedade, a única diferença entre ela e a tecnocracia, é de que no mundo tecnocrático, o grupo de indivíduos que controla o poder, supostamente, seria flexível a alterações uma vez que pessoas mais qualificadas poderiam surgir. Um governo não controlado pelo povo é suscetível a ter o povo controlado pelo governo. Claro, isso talvez possa soar irônico para muitos, dado que a própria democracia já falhou inúmeras vezes durante toda a história moderna, porém acredito o estudo de casos particulares não deva ser utilizado como regra para medir o sucesso democrático. 

Na última década houve uma insurgência de políticos populistas mundo afora os quais podem, e muitas vezes, tendem, a criar essa imagem de que eles são os mais qualificados e preparados para governar, essa concepção de que o populista é o técnico, é extremamente alarmante, uma vez assimilada tal narrativa, muitos eleitores podem, erroneamente, se tornarem falsos tecnocratas sobre a visão de que seu “político de estimação” é o especialista. A discussão sobre populismo é outra extensa e complexa, na qual o estudo de casos, até mesmo no próprio Brasil seria abundante, porém sem desviar muito do tópico, quis comentar tal problematização para talvez acender algumas ideias ou comparações nos leitores. 

Winsor Mccay, 1933
Winsor Mccay, 1933

Reflexões Finais 

Por este artigo não respondi todas as perguntas ou questionamentos que possam surgir durante sua leitura, nem mesmo as dúvidas que eu próprio levantei, apenas procurei expor um conceito que recorrentemente é alvo de discussões, flertes e críticas quando se questiona a democracia. A tecnocracia não é a única contraposição ao sistema democrático que existe, muito menos a única famosa, porém é uma que me assusta pois é talvez a mais justificável. Dessa forma me comprometi a, nem que de maneira simplória, argumentar e entender os pontos de vistas a favor e contra a tecnocracia. 

Não sou um fundamentalista democrático, porém reconheço a beleza teórica de um governo do povo, apesar de muitas vezes a realidade ser muito distorcida. A reclamação que fundamenta a tecnocracia, repito, é válida, para muitos, especialistas deveriam sim estar no poder, pessoas mais qualificadas deveriam sim governar, porém isso não deve ser feito através do método tecnocrata puro, análogo à aristocracia, e sim, utilizando da via democrática. Evidente que essa conclusão óbvia, não é exclusiva a mim, muitos já a propuseram e debateram, porém, sem adentrar nessa outra discussão, a qual trata da extensão da qualificação do governante, acredito que pela natureza do sistema democrático, o objetivo tecnocrata de eleger especialista, seja distante, dada a crescente polarização política e ascensão de figuras populistas. 

 A discussão tecnocrata é muito interdisciplinar, em minha pesquisa encontrei fontes da área da filosofia, ciências sociais, política, relações internacionais, relações públicas e entre outras, dependo de qual sua área de estudos é, diversas leituras, obras e fontes podem lhe ser de interesse. Pessoalmente achei fascinante o extenso artigo “What’s wrong with Technocracy” por Matthew Cole publicado em agosto de 2022 no Boston Review, o link está listado nas fontes bibliográficas abaixo. O artigo tem um maior foco no aspecto filosófico e político, porém me ajudou muito a entender mais adequadamente alguns pontos importantes dessa discussão. 


Fontes Bibliográficas: 

BRITANNICA EDITORS. Technocracy: political philosophy. Britannica, [S. l.], p. 1-1. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/technocracy. Acesso em: 5 nov. 2025. 

COLE, Matthew. What’s Wrong with Technocracy?: Democratic theory points to two problems: unjust concentrations of power and a flawed theory of knowledge.. Boston Review, [S. l.], p. 1-1, 22 ago. 2022. Disponível em: https://www.bostonreview.net/articles/whats-wrong-with-technocracy/. Acesso em: 5 nov. 2025. 

FERNANDES, Florestan. Burocracia e tecnocracia. Folha de S.Paulo, [S. l.], p. 1-1, 19 dez. 1994. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/12/19/opiniao/7.html. Acesso em: 5 nov. 2025. 

FIRMINO, José Fernando de Morais; GONÇALVES, Hegildo Holanda. Filosofia, tecnologia e tecnocracia: uma análise conceitual. Revista Principia, João Pessoa, v. 1, n. 26, p. 79-84, 2015. Disponível em: https://periodicos.ifpb.edu.br/index.php/principia/article/view/64/60. Acesso em: 06 nov. 2025. 

MCKENNA, Robin. Some Sceptical Reflections on Technocracy. The Motivated Sceptic, [S. l.], p. 1-1, 3 mar. 2025. Disponível em: https://rbnmckenna86.substack.com/p/some-sceptical-reflections-on-technocracy. Acesso em: 5 nov. 2025. 

WESLEY, Matheus. A tecnocracia a serviço da democracia? Uma análise do impacto da abordagem tecnocrática sobre a efetividade de políticas públicas de saúde e educação nos municípios brasileiros. 2021. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) - Programa de Pós-graduação em Ciência Política, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2021. Disponível em: http://www.ppgcp.fafich.ufmg.br/defesas/360D.PDF . Acesso em: 05 nov. 2025. 

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