A REAPROXIMAÇÃO ENTRE ARÁBIA SAUDITA E IRÃ E SEUS IMPACTOS NA GEOPOLÍTICA DO ORIENTE MÉDIO
- Renan Moreira
- 26 de set. de 2025
- 4 min de leitura
Palavras-chave: Arábia Saudita; Islã; Irã; Oriente Médio; China.

Resumo
O Oriente Médio é marcado por rivalidades históricas e disputas de poder. Nesse contexto, a recente reaproximação diplomática entre Arábia Saudita e Irã, mediada pela China, representa um movimento estratégico com impactos diretos na estabilidade regional e no mercado internacional de petróleo.
Introdução
O Oriente Médio, região marcada por intensas disputas políticas, religiosas e econômicas, ocupa papel central na geopolítica mundial. Dentro desse cenário, Arábia Saudita e Irã se destacam como atores fundamentais, não apenas por suas diferenças religiosas históricas — entre sunismo e xiismo — mas também pela influência que exercem sobre a estabilidade energética global. A rivalidade entre esses dois países moldou alianças, alimentou conflitos e impactou diretamente os mercados de petróleo nas últimas décadas.
Assim, compreender o recente processo de reaproximação diplomática entre Riade e Teerã é essencial para analisar seus reflexos na segurança regional, nas relações internacionais e na economia global, sobretudo diante do reposicionamento da China como mediadora e da busca saudita por modernização econômica.
Desenvolvimento
A rivalidade entre Arábia Saudita e Irã remonta às divisões internas do Islã. A Arábia Saudita se apresenta como o centro do sunismo, corrente majoritária, que segue a tradição baseada na liderança comunitária após a morte do profeta Maomé. Já o Irã é o principal representante do xiismo, que defende a sucessão espiritual de Maomé por meio de seus descendentes diretos. Essas diferenças religiosas, ao longo do tempo, extrapolaram o campo teológico e se transformaram em instrumentos de disputa geopolítica. A Arábia Saudita passou a se posicionar como guardiã dos locais sagrados do Islã (Meca e Medina), enquanto o Irã se consolidou como polo de resistência xiita, apoiando grupos como o Hezbollah no Líbano e os houthis no Iêmen.
A reaproximação diplomática
Nos últimos anos, pressões internas e externas estimularam uma mudança de postura. Em 2023, com mediação da China, os dois países anunciaram a retomada de relações diplomáticas formais. Essa aproximação é estratégica e para a Arábia Saudita, representa uma oportunidade de estabilizar sua vizinhança e reduzir conflitos que ameaçam sua economia em processo de diversificação. Já para o Irã, é uma forma de escapar do isolamento imposto pelas sanções ocidentais e de retomar canais comerciais. E para a China, mediadora, o gesto reforça seu protagonismo no Oriente Médio, em contraposição à histórica influência dos Estados Unidos.
A estabilidade entre sauditas e iranianos tem efeito direto sobre o mercado global de petróleo, já que ambos são grandes produtores e membros da OPEP+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Conflitos e instabilidades sempre elevaram os preços da commodity, afetando todo o sistema econômico mundial. Uma aproximação reduz riscos de choques de oferta, podendo gerar maior previsibilidade no setor energético.
Além disso, a Arábia Saudita, principal exportadora mundial, tem buscado equilibrar sua
dependência do petróleo com o programa Vision 2030, que pretende diversificar sua
economia. Nesse contexto, diminuir tensões regionais é essencial para atrair
investimentos externos.
Modernização saudita: entre o Ocidente e a tradição islâmica
A Arábia Saudita vive um processo de transformação sob a liderança do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. O país investe em megaprojetos, como a “The Line “que é uma cidade autossustentável formada por duas estruturas paralelas e espelhadas de arranha-céus que se estendem por 170 km. O projeto Neom, onde se insere The Line, é um projeto que inclui a cidade futurista e uma ecologia sustentável. A cidade pode abrigar até 9 milhões de pessoas. Nela não haverá carros, com planeamento de táxis voadores, robôs domésticos e outras tecnologias que visam a mobilidade sem carbono e a cidade funcionará exclusivamente com energias limpas no meio do deserto e que está prevista para ser entregue em 2030, e que faz parte na tentativa de se posicionar como polo tecnológico e turístico. Reformas sociais também foram introduzidas, como a autorização para mulheres dirigirem e maior abertura cultural.
Contudo, tais mudanças ocorrem de forma controlada, sem ruptura total com as tradições islâmicas. O regime ainda mantém rígidos padrões religiosos, conservadores e políticos, buscando um equilíbrio entre modernização econômica e preservação da identidade islâmica. Essa dualidade reforça a imagem da Arábia Saudita como um país que transita entre dois mundos: o da tradição religiosa e conservadora e o da globalização.

Considerações finais
A reaproximação entre Arábia Saudita e Irã representa um marco na geopolítica do Oriente Médio. Mais do que um gesto diplomático, trata-se de uma tentativa de estabilizar uma das regiões mais voláteis do mundo, com impactos diretos no mercado energético global. Ao mesmo tempo, revela a ascensão da China como mediadora diplomática e o reposicionamento da Arábia Saudita, que busca projetar-se como potência moderna sem abandonar sua tradição islâmica.
Se consolidada, essa cooperação poderá reduzir conflitos regionais históricos, e gerar maior previsibilidade econômica mundial. No entanto, os desafios históricos e religiosos permanecem como um enorme obstáculo a uma aliança plena e duradoura não só entre os dois países principais, mas também na região do Oriente Médio.
Referências
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https://www.theguardian.com/world/2025/may/13/iran-proposes-partnership-with-uae-
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https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/analise-com-aproximacao-da-arabia-
saudita-china-diminui-dominio-dos-eua-no-oriente-medio/






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