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O JAPÃO E A CRISE DO SISTEMA DE PARTIDO DOMINANTE

Palavras-chave: Japão; Partido Liberal Democrata (LDP); Crise Política; Hegemonia Partidária; Extrema-direita; Sanseito; Populismo de Direita; Adaptabilidade Partidária; Cooptação Política; Reconfiguração Política.

@_gabriel.dsd
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INTRODUÇÃO

A renúncia do Primeiro-Ministro do Japão, Shigeru Ishiba, é o novo ponto da profunda crise política presente no país. Seu governo estava sofrendo de uma combinação de fatores estruturais e pontuais: estagnação salarial, inflação crescente — especialmente no preço do arroz —, um déficit fiscal que alarma as instituições financeiras e uma contínua fadiga da população com os escândalos de corrupção envolvendo o Partido Liberal Democrata (LDP).

O cenário foi agravado por pressões norte-americanas em relação a tarifas e gastos de defesa, pela ascensão de uma oposição interna de extrema-direita que clama por expansão fiscal, uma população que clama por uma redução nos impostos e defende restrições à imigraçao e derrotas eleitorais consecutivas em 2024-25.

Após a saída de Ishiba, o LDP abriu uma disputa interna por sua sucessão, havendo candidatos ligados a esquemas de corrupção, outros associados ao legado de Shinzo Abe e outros sem grandes destaques. O debate central não está na figura do Primeiro-Ministro em si mas na capacidade do LDP de se reinventar para sobreviver a um dos períodos mais turbulentos de sua história, sendo comparável apenas às derrotas de 1993-94 e 2009-12.

Considerando, portanto, que o partido hegemônico do Japão enfrenta derrotas históricas, com o risco de perder o poder pela terceira vez, e está sofrendo com uma série de problemas complexos, este artigo se propõe a analisar a trajetória do LDP, analisar as causas de seu colapso atual e explorar os cenários futuros para o partido e para a política japonesa como um todo.


O SURGIMENTO E A HEGEMONIA DO LDP

Embora outros partidos no mundo tenham aproveitado longos períodos de domínio sob a política, como os democratas-cristãos na Itália ou os sociais-democratas na Suécia, poucos se comparam à longevidade e à hegemonia do LDP no Japão. Fundado em 1955 a partir da fusão dos partidos Liberal e Democrata, o LDP governou o país por mais de 90% de sua história. Sua dominância foi interrompida apenas brevemente em duas ocasiões: em 1993-94, após uma série de escândalos de corrupção que fragmentaram o partido e fadiga da população, e novamente em 2009-12, em um contexto de desgaste popular. Em ambos os casos, a resiliência do partido e a incapacidade da oposição de governar permitiram o seu retorno ao poder.

Essa resiliência do LDP, muitas vezes independente da sua popularidade imediata, foi sustentada por uma combinação de fatores. Estruturalmente, o partido se beneficiou de um sistema eleitoral baseado em distritos que, até a reforma dos anos 1990, incentivava a competição intrapartidária e permitia que o LDP concorresse diversos políticos com políticas públicas contraditórias, uma espécie de catch-all que dificultava a competição de outros partidos, além das koenkai, organizações de apoio pessoal que funcionam como máquinas eleitorais de financiamento e de patronato. Politicamente, o LDP consolidou seu poder através de relações clientelistas, como o direcionamento de verbas orçamentárias para bases eleitorais específicas.

Acima de tudo, a principal característica do partido foi sua notável adaptabilidade. Chamado de um “partido-ameba”, o LDP possuía um dinamismo interno que lhe permitia absorver as principais pautas da sociedade japonesa e as principais propostas de lei dos partidos opositores e traduzi-las em políticas públicas, mantendo assim o controle da agenda nacional, coletando e descartando questões de acordo com o momento político.


A CRISE DO LDP E A ASCENSÃO DA EXTREMA DIREITA

As derrotas do LDP em 2024-25 são atribuídas, dentre outras causas, à sua incapacidade de responder à crise do custo de vida e de gerenciar pautas crescentes como a de imigração e a percepção de altos gastos com trabalhadores estrangeiros. Essa inabilidade de gerenciar fatores materiais e discursivos abriu espaço para novos atores, com enfoque no partido Sanseito. Fundado em 2020 por Sohei Kamiya, um ex-LDP de extrema-direita conhecido por apoiar teorias da conspiração, o Sanseito adota uma plataforma “Japão Primeiro” abertamente inspirada no movimento de Donald Trump, com um discurso antiglobalista, xenófobo, focado em estímulos financeiros e, simultaneamente, cortes de impostos. Em apenas cinco anos, o partido demonstrou um imenso crescimento, conquistando 18 cadeiras no parlamento nacional e 151 em assembleias locais.

O Sanseito, demograficamente, está presente em segmentos específicos da população, especialmente os mais jovens que exigem a redução de impostos, controle da imigração e, crucialmente, a quebra do status quo. Outra base de apoio significativa vem de japoneses que ingressaram no mercado de trabalho entre o fim dos anos 1990 e o início dos 2000 e sofrem com a estagnação econômica.

Estruturalmente falando, a ascensão do Sanseito mostra uma falha fundamental no modelo histórico do LDP. Como mencionado, o partido foi imensamente capaz de absorver as pautas mais relevantes e neutralizar a oposição. Hoje, essa capacidade de adaptação parece estar esgotada ou, ao menos, extremamente morosa. A crise atual mostra como o LDP está incapaz de incorporar e esvaziar o discurso nacionalista, uma tarefa que já foi centralizada em Shinzo Abe. Mesmo quando o partido, sob Ishiba, tentou abordar temas como a imigração sob a ótica de segurança, ele falhou em conter o poder discursivo dos novos rivais, quebrando o monopólio que o LDP historicamente deteve sobre a direita japonesa.

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CONCLUSÃO E PROGNÓSTICO

Em suma, a renúncia do Primeiro-Ministro Ishiba é um ponto dentre a crise sistêmica de longa data e pressões agudas de curto prazo. Os métodos tradicionais de governança do LDP mostram-se antigos e ineficazes em uma sociedade marcada pelo envelhecimento populacional, estagnação econômica e a ascensão de um discurso anti-imigratório e inspiração em uma direita populista estrangeira com o qual o partido, historicamente, nunca teve que lidar em tal proporção.

Diante dessa crise, o futuro do partido parece depender de duas principais figuras com propostas relativamente similares. Por um lado, Shinjiro Koizumi, ministro da agricultura e filho de um antigo primeiro-ministro, possui um discurso um pouco mais moderado e com propostas de reforma tributária, cortes temporários nos impostos e controle da imigração, com uma postura menos intervencionista na economia. Embora seja interpretada como uma rota mais moderada, se as reformas falharem, há o risco do LDP perder mais cadeiras e inspirar uma nova coalizão de oposição unida — por mais que brevemente — para reeditar o cenário de 1993 com a coalizão Hosokawa que o removeu brevemente do poder e passou pacotes de leis com apoio popular.

Do outro lado está Sanae Takaichi, uma figura com ampla experiência no LDP e com posições conservadoras e políticas favoráveis à uma revisão da constituição japonesa, discurso nacionalista e uma oposição forte à taxa de juros do Banco do Japão, sendo favorável ao estímulo econômico. A guinada à direita seria uma reedição da tática do LDP de cooptar o discurso de seus opositores e reconquistar a base nacionalista. O risco é triplo — a estratégia pode alienar os eleitores moderados, assustar o mercado e forçar o Banco do Japão a aumentar as taxas de juros, e, falhando em entregar resultados econômicos concretos, acabar fortalecendo ainda mais o Sanseito.

A questão fundamental é, portanto, qual será a nova configuração da política japonesa após os abalos do LDP. Seja através de uma competição multipartidária mais acirrada, uma reconsolidação do LDP ou até de uma extrema-direita ascendente, a certeza é que o Japão está em um período de profunda incerteza e reconfiguração política.


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