CHINA, DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E O NOVO PLANO QUINQUIENAL
- Kainã Pinto

- 20 de fev.
- 15 min de leitura
Palavras-chave: planejamento estatal; plano quinquienal; economia política da China; desenvolvimento econômico; modernização produtiva; inovação tecnológica; modelo de desenvolvimento chinês; economia.

INTRODUÇÃO
Desde 1949, o desenvolvimento econômico na China tem sido estruturado por meio de instrumentos de planejamento estatal. Entre estes instrumentos, os planos quinquienais possuem um papel central, funcionando como um dos principais mecanismos de definição de prioridades e coordenação econômica entre público e privado, entre outras funções. Há dois conceitos importantes que devem ser definidos para a compreensão da história econômica da China. Primeiro, entende-se por economia planificada, seguindo a definição de Michael Ellman (2014), do que ele afirma ser uma economia planificada tradicional, um modelo no qual a alocação de recursos é centralizada em órgãos estatais, de maneira hierárquica, com metas obrigatórias e um papel subordinado de preços, lucros e instituições financeiras. Já o plano quinquienal é definido por Jun Yin e Jia Xu (2022) como um sistema por meio do qual o Estado formula e implementa diretrizes de desenvolvimento econômico e social para um período de cinco anos.
Há uma série de periodizações possíveis para a economia contemporânea chinesa. Parte dos autores, como Guan Quan (2024), Maurice Meisner (1999), Keyu Jin (2020) e Barry Naughton (2007) distingue entre um período de economia planificada (1949-1978) e um período de reformas e abertura (a partir de 1979). Outros propõem subdivisões internas aos próprios planos quinquienais como Yin e Xu (2022) que os periodizam do 1º ao 5º plano; do 6º ao 10º plano; e do 11º em diante. Este artigo adota a primeira periodização por oferecer maior clareza analítica para examinar a continuidade e as transformações do planejamento estatal ao longo do tempo.
A formulação do 14º Plano Quinquienal (2021-2025. PQ14) e do 15º Plano Quinquienal (2026-2030. PQ15) ocorre em um contexto internacional marcado por tensões geopolíticas, mudanças no processo de globalização com o retorno do protecionismo tarifário e de restrição de exportação de tecnologias-chave, além da pandemia de COVID-19, circunstâncias que foram disruptivas à cadeia de suprimentos chinesa (PARK, 2024; ANTON, SEVASTOPULO, WU, 2026). Internamente, a China ainda está passando por um período de desaceleração estrutural de crescimento e envelhecimento demográfico (IMF, 2025).
Neste cenário, o discurso oficial chinês passou a enfatizar conceitos como “desenvolvimento de alta qualidade”, modernização e inovação tecnológica (XI, 2026). Diante disso e de questionamentos por parte de analistas internacionais (GUO, 2025; YU, 2025), surge a questão: o 15º Plano Quinquienal representa uma ruptura no modelo de desenvolvimento chinês ou é um aprofundamento das diretrizes já presentes no 14º Plano e no discurso estatal recente?
Defende-se aqui que o PQ15 é, predominantemente, uma continuidade estratégica, marcada por intensificação discursiva e programática da agenda de modernização econômica, inovação tecnológica e aumento da produtividade, mais do que uma mudança estrutural súbita.
Metodologicamente, o artigo adota abordagem qualitativa baseada em revisão da literatura especializada sobre a economia política chinesa e análise documental comparativa dos textos oficiais do 14º e do 15º Planos Quinquenais, bem como de pronunciamentos governamentais relacionados.
O artigo está estruturado em quatro partes: 1) uma revisão da história da economia chinesa de 1949 a 1979; 2) uma revisão da história da economia chinesa de 1979 aos dias de hoje; 3) uma comparação entre o PQ14 e o PQ15; 4) considerações finais sobre o tema.
Por fim, cabe alertar que o PQ14 já foi publicado oficialmente pelo governo enquanto o PQ15 ainda está em fase de estudos e será aprovado em 2026 (CHINA, 2025a; CSET, 2021). Sua versão provisória foi emitida pelo Comitê Central do Partido Comunista Chinês (CC-PCCH) (CHINA, 2025a). Devido a essa distinção, pode haver mudanças posteriores a serem implementadas pelo governo chinês.

BREVE HISTÓRICO DA ECONOMIA CHINESA
A ECONOMIA CHINESA PLANIFICADA: DE 1949 A 1978
O processo de desenvolvimento e crescimento econômico da China foi, de 1949 até o presente, uma transição complexa de uma economia imensamente agrária para uma centrada em indústrias e serviços, precisando de uma imensa mobilização de capital, força de trabalho, investimento estrangeiros e mercados domésticos e internacionais (QUAN, 2024).
Este processo, da fundação da República Popular em 1949 até as reformas de Deng Xiaoping nos anos 1970, com ajustes periódicos devido a circunstâncias econômicas e políticas, especificamente o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural, a economia chinesa seguiu um modelo de economia planificada similar ao modelo da União Soviética (MEISNER, 1999; QUAN, 2024; NAUGHTON, 2007). Este modelo baseou-se em uma industrialização rápida, concentrada sobretudo na indústria pesada, como metalurgia, produtos químicos e materiais de uso bélico, setores que exigem alto investimento de capital e conhecimento técnico. Paralelamente, avançaram a coletivização agrária[1] e a estatização de praticamente todos os elementos nacionais[2] (SHEARER, 2006).
Este período inicial focou, portanto, em indústrias pesadas, algo que continuou por todo o período de economia planificada. Entre 1952 e 1978, por exemplo, a produção industrial cresceu em média de 11,5% ao ano, enquanto a participação do setor industrial cresceu de 18% para 44% (NAUGHTON, 2007). Esta priorização do setor industrial teve seus lados positivos e negativos. De acordo com Quan (2024) a economia chinesa sofreu de fortes desequilíbrios setoriais, levando a poucos bens de consumo, crescimento instável e flutuante, fábricas com excesso de funcionários e grandes perdas financeiras. Barry Naughton (2007) e Jun Yin e Jia Xu (2022) enfatizam o lado positivo, especialmente a autossuficiência em uma grande quantidade de bens que facilitou um grande aumento do PIB per capita e a produtividade agrícola. Naughton (2007) ainda enfatiza que, em 1952, apenas três anos após a proclamação da República Popular, a China já havia superado os níveis de produção industrial e agrícola dos anos pré-revolucionários[3].
Após o fim do ápice da Revolução Cultural em 1969, especialmente com a visita de Nixon para a China em 1972, as relações da China com o Ocidente começam a se normalizar e, com isso, intensificam-se as relações comerciais e o fluxo de capitais (NAUGHTON, 2007). Em 1976, com a morte de Mao Tsé-Tung e, em dezembro de 1978, com a liderança de Deng Xiaoping e outros políticos chineses que advogavam por reformas econômicas e políticas, inicia-se um período de reformas estruturais que perduram até o presente (ibid.).
Considerando o período como um todo, nota-se que, em 1949, 91,52% da força de trabalho do país era rural, com uma taxa de urbanização de 10,64% e uma taxa de crescimento de PIB de 5-6% ao ano (QUAN, 2024). Em 1976, com o início do processo de abertura, a população rural é de 76,13% e a taxa de urbanização era de 17,92% (ibid.). A taxa de crescimento do PIB aumentou para 9% e acima (ibid.). Este período ainda, por se concentrar em desenvolvimento industrial, levou a baixos níveis de consumo por parte da população – um ponto importante que posteriormente será considerado –, com um crescimento de 4,3% ao ano na taxa de consumo de 1952 a 1978 enquanto a formação de capitais cresceu em uma taxa de 10,4% por ano durante o mesmo período (NAUGHTON, 2007).
Como um todo, o período de 1949-1978 estabeleceu a base do desenvolvimento econômico chinês, mesmo com desequilíbrios marcantes entre indústria pesada e indústria leve, além do setor rural que permanecia estagnante. Este período é relevante para a análise contemporânea por gerir a base industrial necessária para o crescimento econômico chinês da abertura, além de mostrar, especialmente a partir de 1972, que o Estado chinês possuía flexibilidade para ajustar seu planejamento econômico.
A ECONOMIA CHINESA DE ABERTURA: DE 1979 AOS DIAS DE HOJE
Após a introdução das reformas de abertura de Deng Xiaoping, a economia chinesa passou por uma liberalização gradual de preços, ao mesmo tempo em que o Estado manteve o controle sobre setores estratégicos, especialmente as indústrias pesadas (KUO, 2025). Paralelamente, o governo passou a incentivar indústrias com potencial exportador baseadas em capital privado (ibid.).
No setor agrícola, as reformas permitiram preços mais elevados para o campesinato, estimulando o aumento da produção (ibid.). Por fim, a criação de zonas econômicas especiais nas áreas costeiras tornou-se um dos principais motores do boom econômico observado nas décadas seguintes[4] (ibid.).
O crescimento médio da China de 1979 a 2009 foi de 9,9% (LIN, 2012b). Em 1978, cerca de 30% da população rural, ou 250 milhões de pessoas, viviam abaixo da linha da pobreza – em 2009, este número caiu para 36 milhões (ibid.). Além do mais, de acordo com Olivier Blanchard (2021), houve um aumento na população ativa, além de uma taxa de investimento de PIB de 40%, uma alta taxa de economia de 40-50% do PIB, investimentos imensos, sendo USD 440 bilhões entre 1979 e 2002, além de grandes investimentos na infraestrutura. O processo de 1978 a 2008 foi marcado pela imitação e um baixo custo de produção, o que ele classifica de modelo quantitativo (ibid.).
Hoje, a China é a segunda maior economia do planeta Terra com cerca de 16% do PIB global (JIN, 2020). Em 2025, a economia chinesa cresceu em 5%, batendo sua meta anual (IMF, 2026). Em relação aos problemas econômicos e os desafios da China, há uma preocupação com o papel das instituições do Estado chinês e suas competências, preocupações com direitos de propriedade intelectual, desigualdade econômica e, mais recentemente, uma fraca demanda econômica doméstica a longo prazo e uma queda na taxa de natalidade (NAUGHTON, 2007; IMF, 2026).
Esse crescimento, especialmente a partir de 2010, é marcado por uma transição econômica notável. A China para de se concentrar em aumentar a produção de seus produtos manufaturados e foca no que se denomina como “indústrias estratégicas emergentes” (MARSH, 2025). É a partir deste momento que o governo chinês foca em veículos elétricos, painéis solares e outras tecnologias onde a China possui vantagens comparativas, incluindo no acesso a minerais raros (ibid.).
Há outros três momentos que este artigo considera como importantes para entender a transição chinesa: o surgimento em 2017 do conceito de “desenvolvimento de alta qualidade” por Xi Jinping, sendo um foco em inovação tecnológica, o 14º Plano Quinquienal, que se concentrou em autossuficiência tecnológica e novas tecnologias de ponta como computação quântica, chips, computação e inteligência artificial, e o que em 2023 Xi Jinping denominou como “Novas Forças Produtivas de Alta Qualidade” (MARSH, 2025; PARK, 2024; XINHUA, 2024). Todos estes elementos, especialmente o “desenvolvimento de alta qualidade” mostram como a mudança de orientação é um prelúdio ao PQ14.
Esta transição econômica surge pela necessidade de trocar um modelo baseado em industrialização, globalização, urbanização e expansão demográfica por um modelo que encoraja o consumo doméstico, o aumento da eficiência e das novas tecnologias (PARK, 2024). Faz-se a transição do que Guan Quan (2024) descreve como um modelo de “desenvolvimento extensivo”, aquele baseado em expansão de produção de bens sem se concentrar em eficiência e progresso tecnológico por um modelo de “desenvolvimento intensivo” que assim o faz.
Essa escolha estratégica é coerente com algumas correntes centrais da economia política do desenvolvimento. Para Simon Kuznets (1973), o desenvolvimento econômico moderno depende da criação de novos processos tecnológicos e do aumento da produtividade. Em linhas gerais, essa perspectiva também aparece em Blanchard (2021) e no modelo de crescimento Solow-Swan, que enfatizam o papel da produtividade total dos fatores (PTF). Justin Yifu Lin (2012a), por sua vez, destaca que a inovação tecnológica acelerada gera retornos mais elevados sobre o capital, contribuindo para a convergência estrutural entre economias em diferentes estágios de desenvolvimento.
Dessa forma, a análise do período de abertura e das decisões econômicas recentes do governo, especialmente a partir de 2010, fornece a base analítica necessária para compreender os objetivos e as diretrizes dos novos planos quinquienais e revela, também, como a transição para um modelo econômico intensivo já estava presente no planejamento chinês há mais de uma década.

ANALISANDO O NOVO PLANO QUINQUIENAL (2026-2030)
Considerando, portanto, a guinada para um aumento de produtividade e inovação tecnológica, as análises do FMI e do Banco Mundial em torno de reformas necessárias na estrutura da economia chinesa e as mudanças internacionais, a análise do PQ15 será comparativa com o PQ14 (IMF, 2026; WORLD BANK, 2025). Irá ser comparado: 1) objetivos; 2) a inovação tecnológica e produtividade como eixo central; 3) mercado doméstico, demografia e consumo; 4) segurança econômica e ambiente internacional.
Em relação aos objetivos, ambos os planos quinquienais focam no desenvolvimento de alta qualidade como temas primários, porém, o PQ14 tende a ser, por ser o primeiro de três planos quinquienais a serem implementados para o objetivo de uma modernização socialista em 2035, mais amplo e focado em coordenação e equilíbrio entre todos os objetivos (CSET, 2021). Já o PQ15 adota uma linguagem focada em aceleração tecnológica e, especialmente, a remoção de travas e gargalos para o desenvolvimento econômico (CHINA, 2025a). Isso é refletido também na ênfase no governo chinês em combater o neijuan, o aumento exacerbado de competição entre firmas chinesas por mínimos ganhos que aumentam a deflação e deprimem os lucros necessários para maiores aquisições de capital (HALL, 2025).
Em relação à inovação tecnológica e a produtividade como eixo central, essa permanece como fato entre ambos os planos. A principal distinção entre os dois é que o PQ15 adota, assim como nos objetivos, uma linguagem mais concentrada em reforçar a base da economia chinesa, em acelerar o mais rápido possível a criação de novas tecnologias e ao atrelar a modernização a um imperativo de segurança em meio de um contexto internacional de maior competição (CHINA, 2025a).
Em relação ao mercado doméstico, demografia e consumo, o PQ14 foca bastante em desenvolver um mercado doméstico, com o art. 14 encorajando o “aceleramento do cultivo de um sistema doméstico de demanda” e uma seção dedicada a promoção completa de um mercado consumidor interno (CSET, 2021, p. 37). O PQ15 foca em combater os desequilíbrios que ainda permanecem no desenvolvimento deste mercado consumidor interno e encoraja uma expansão na taxa de natalidade, porém, não de maneira compreensiva (CHINA, 2025a). Isso provavelmente mudará quando o plano por completo for aprovado.
Por fim, em relação a segurança econômica e o ambiente internacional, ambos os planos focam em simultaneamente criticar as tensões geopolíticas e defender uma abertura comercial maior e expandir os laços econômicos com outros países (CSET, 2021; CHINA, 2025a). Não há incoerência nessa escolha, como já enfatizado pelos discursos oficiais do Estado a favor de multilateralismo, livre comércio e até mesmo com um papel maior da OMC (CHINA, 2025c).
Portanto, quais são as maiores diferenças entre ambos os planos quinquienais? Este artigo considera que a principal diferença entre os planos está na adaptação estratégica por parte do Estado chinês após embates geopolíticos como a guerra comercial com o segundo mandato de Donald Trump e restrições tecnológicas (CHINA BRIEFING, 2026). O vocabulário do PQ14 já está baseado em mudanças qualitativas da economia e suas prioridades são claras, com um foco em desenvolvimento sustentável e de maior qualidade e a modernização econômica (CSET, 2025; KWONG, 2024; UNDP, 2021). Reforça a natureza de continuidade entre os planos quando se analisa o discurso do Vice-Ministro de Relações Exteriores Shen Haixiong, que afirma uma linha contínua do 14º aos 16º planos quinquienais para atingir a modernização socialista até 2035 (CHINA, 2025b).
Além do Vice-Ministro, periódicos chineses como o Qiushi afirmam que o PQ15 é um laço entre o passado e o futuro, ou seja, uma continuidade (QIUSHI, 2026a). O jornal segue afirmando que as recomendações seguem o mesmo método do PQ14 (ibid.).
As escolhas estratégicas atuais não são surpreendentes. A modernização econômica e a busca por novas tecnologias são recorrentes ao longo da história da República Popular (NAUGHTON, 2007; LIN, 2012b). Desde 1949, passando pela abertura, até os dias de hoje, a política econômica chinesa combinou a absorção de tecnologias externas com o fortalecimento de capacidades de geração de tecnologias endógenas por meio da ação estatal (NAUGHTON, 2007; MEISNER, 1999; QUAN, 2024; YIN, XU, 2022). Esse padrão apenas se intensifica na abertura quando surge novos investimentos estrangeiros, acordos comerciais e políticas industriais direcionadas a adaptação tecnológica[5] (QUAN, 2024; JIN, 2020).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando, portanto, os discursos oficiais por parte do Estado chinês, da presença de palavras que denotam um crescimento intensivo, o histórico de priorização de adaptação e criação tecnológica, além da flexibilidade do planejamento econômico desde a abertura, conclui-se que a China e seu PQ15 possui o objetivo claro de modernizar e intensificar o desenvolvimento econômico a partir do aumento da produtividade e da inovação tecnológica.
Este artigo procurou analisar e comparar o 14º e o 15º Plano Quinquienal (2021-2025, 2026-2030, respectivamente) com base no histórico de planejamento econômico chinês com o intuito de avaliar se as diretrizes atuais representam uma ruptura ou uma continuidade das estratégias adotadas nas últimas décadas. A partir de uma abordagem qualitativa, revisão bibliográfica e uma análise comparativa com o PQ14, afirma-se que o PQ15 se insere em um processo de transição estrutural em curso, marcado pela passagem de um modelo de desenvolvimento extensivo para um desenvolvimento intensivo, centrado em inovação tecnológica, produtividade e eficiência econômica.
A análise histórica demonstra que o planejamento estatal sempre ocupou uma posição central na organização da economia chinesa desde a proclamação da República Popular em 1949. A China, ao longo do percurso até o presente, combinou mecanismos de mercado com coordenação estatal centrados em crescimento extensivo que foi altamente eficaz para o crescimento econômico. Recentemente, este modelo encontra-se um pouco desgastado, especialmente na década de 2010, diante da desaceleração do crescimento, das mudanças demográficas e da redução dos retornos baseados em mão de obra abundante.
Neste contexto, o PQ15 aprofunda as diretrizes que já foram introduzidas no PQ14 que já possui raízes em projetos do Estado desde 2010, reforçando a centralidade da inovação tecnológica, da modernização industrial e da autossuficiência estratégica, ao mesmo tempo que expressa flexibilidade e atenção aos principais problemas da economia chinesa, especialmente a transição para uma economia de consumo. As principais diferenças observadas são ajustes adaptativos diante de um cenário doméstico e internacional mais restritivo, além de ênfase em questões mais salientes em que houve pouco progresso ou progresso insatisfatório, como com os citados gargalos do plano.
Longe de ser uma ruptura, o plano aprofunda uma trajetória já previamente delineada e cujos desdobramentos vão depender da eficácia de implementação por parte do governo chinês e uma maior estabilidade no cenário internacional.
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[1] Nota-se que a coletivização agrária e a relação entre o Estado chinês e seu campesinato é bem distinta da relação do Estado soviético com os seus. Recomenda-se a leitura de Meisner (1999) para entender um pouco mais das dinâmicas chinesas e a reforma agrária que ocorreu no século XX.
[2] Importante notar que a economia chinesa demorou alguns anos após o estabelecimento da República Popular para implementar a estatização completa da economia nacional (MEISNER, 1999).
[3] Saliento aqui que em 1952, a China, recentemente, passado pela Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945) e pela Guerra Civil Chinesa (1946-1949). Ambos os eventos foram imensamente destrutivos para a sociedade e economia chinesa.
[4] Para uma visão mais crítica das reformas chinesas, ver HARVEY, David. A Brief History of Neoliberalism. Oxford: Oxford University Press, 2005. Especialmente o capítulo 5.
[5] A partir dos 2000, é possível citar uma dezena de políticas de Estado focadas em tecnologia e em inovação tecnológica. Cito aqui o Strategic Emerging Industries Initiative (2010), o Made in China 2025 (2015) e o Innovation-Driven Development Strategy (2016) (KROEBER, 2024).



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