COOPERAÇÃO SUL-SUL E GOVERNANÇA GLOBAL: UMA ANÁLISE DO BRICS E DA DESDOLARIZAÇÃO
- Milena Assunção

- 28 de out. de 2025
- 6 min de leitura
PALAVRAS-CHAVE: BRICS, China, Brasil, desdolarização, governança econômica global, Sul Global, multipolaridade

A história da diplomacia brasileira é constantemente pautada na busca pela paz e harmonia internacional. As medidas de política externa quase sempre estiveram voltadas para o multilateralismo e pela defesa da normatização da ordem internacional. Em “A política externa brasileira e a multilateralidade: a inserção internacional do brasil como membro do BRICS”, Marcela Tarter da Rosa (2014) reconhece duas formas de se buscar o multilateralismo: a primeira, por meio da formação de alianças entre países com interesses convergentes; e a segunda, pela compreensão da necessidade de instituições internacionais voltadas à regulação da ordem internacional. Como exemplos, a autora cita o BRICS e a UNASUL (União de Nações Sul-Americanas) no primeiro caso, e a atuação brasileira na ONU (Organização das Nações Unidas) e na OMC (Organização Mundial do Comércio) no segundo (TARTER DA ROSA, 2014, p. 31).
Em suma, é possível inferir que a utilização dessas duas estratégias não se dá de forma distinta, uma vez que ambas participam de um plano de política externa voltado à formação de agrupamentos que se concretizam em espaços globais de diálogo e busca pela multilateralidade. Dessa forma, vale ressaltar que formações como a do BRICS são significativas para as dinâmicas internacionais, tendo em vista a representação de países com elevado crescimento e projeções econômicas cada vez mais inseridas nos debates econômicos mundiais (TARTER DA ROSA, 2014, p. 31).
No entanto, à medida que se consolida uma trajetória marcada por perspectivas cada vez mais assertivas em relação ao fortalecimento do Sul Global, torna-se inevitável o surgimento de tensões diante das normas e estruturas que regem o sistema internacional. Esse movimento provoca a redefinição das relações entre os Estados e desafia o predomínio de instituições internacionais tradicionalmente lideradas por países europeus e norte-americanos. Assim, sua relevância na gestão de conflitos, no suporte econômico e na formulação de políticas globais passa a ser questionada, refletindo uma crescente demanda por uma governança internacional mais representativa (TARTER DA ROSA, 2014, p. 31).
FORÇA MOTRIZ DOS NOVOS RUMOS INTERNACIONAIS
Ao discutir a representação dos países emergentes na configuração de novas dinâmicas internacionais, torna-se indispensável reconhecer a relevância dos fluxos comerciais promovidos pelos membros do BRICS, especialmente pela China. O expressivo volume de importações e exportações do país, aliado à sua capacidade produtiva e à amplitude de seus mercados consumidores, posiciona o país como um ator central nas relações econômicas globais. Essa posição é fortalecida por parcerias estratégicas com nações como o Brasil, que contribuem para consolidar uma rede de interdependência econômica Sul-Sul cada vez mais robusta. Diante desse cenário, é inevitável o desconforto gerado em países como os EUA que, por sua vez, acabam diluindo seu poder no sistema internacional (TARTER DA ROSA, 2014, p. 32).
Ademais, apesar do exponencial crescimento econômico, associado com a bem-sucedida integração entre os países emergentes, a China necessita ter o controle no equilíbrio de sua própria expansão visando a manutenção da sua imagem pacífica e cooperativa. Ao passo que o país se estabelece em instituições como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), surgem questionamentos sobre quais serão as tratativas para a mitigação dos moldes encontrados em modelos organizacionais ocidentais. Dessa forma, Pequim procura exercer um discurso mais voltado para a cooperação Sul-Sul pelo desenvolvimento sustentável, reforçando seu papel enquanto uma potência emergente. Nesse contexto, é possível afirmar que o BRICS se consolida como uma plataforma essencial para um posicionamento centrado na governança global mais inclusiva e diminuir as percepções de hegemonia e unilateralismo - aos quais não são posições de interesse dos chineses no âmbito comercial e político (NIU, 2013).
Dessa forma, torna-se evidente a relevância da parceria entre Brasil e China no contexto das transformações da ordem econômica internacional. Desde 2009, o gigante asiático consolidou-se como o principal parceiro comercial do Brasil, estabelecendo uma relação marcada por forte complementaridade econômica e por crescente interdependência estratégica. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, apenas em 2022 o comércio bilateral foi responsável por 26,8% das exportações, 22,3% das importações brasileiras e 24,8% da corrente de comércio total do país. Tal panorama revela não apenas o peso econômico da China nas transações comerciais brasileiras, mas também a importância de um alinhamento político pautado na multipolaridade, no respeito à soberania e na busca por maior autonomia frente ao polo hegemônico tradicional (GARCIA; LANNES; RESENDE, 2023, p. 69).
DO OURO AO DÓLAR, DO DÓLAR AO?
Diante de uma busca cada vez mais pela independência de países do Sul global, ambos os países se posicionam favoráveis pela utilização de suas próprias moedas nas transações comerciais, impossibilitando o controle dos Estados Unidos da América sobre países com menor poder econômico. Em uma visita recente do presidente brasileiro à Indonésia, Lula criticou o protecionismo e propôs o comércio dos países com moedas próprias, defendendo diversas vezes a desdolarização nas transações internacionais. O presidente ainda disse:
Tanto a Indonésia quanto o Brasil têm interesse em discutir a possibilidade de comercialização entre nós dois ser com as nossas moedas. Essa é uma coisa que nós precisamos mudar. O século 21 exige que tenhamos a coragem que não tivemos no século 20. Exige que a gente mude alguma forma de agirmos comercialmente para não ficarmos dependentes de ninguém. Nós queremos multilateralismo e não unilateralismo. Nós queremos democracia comercial e não protecionismo (G1, 2025).
A questão principal é que BRICS já vinha sendo discutido como um problema para a Casa Branca, com as tratativas e questionamentos sobre a necessidade de utilização do dólar para transações, ficou ainda mais visível a preocupação dos EUA em relação ao grupo econômico, em particular com as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump à alguns dos países do BRICS, como China e Brasil - o que, de fato, não resultou em grandes problemas aos países. O ex-diretor do Fórum Econômico Mundial ainda contribuiu para a análise, Frank-Jürgen Richter disse:
Acredito que isso [a criação de uma moeda comum] não vai acontecer da noite para o dia. Primeiro, China e Índia precisam superar suas diferenças como as duas principais potências nessa discussão monetária. Mas se isso acontecer, em quatro ou cinco anos, será um grande choque para a economia americana” (CNN Brasil, 2025)

DEPENDÊNCIA OU INDEPENDÊNCIA? NOVAS PERSPECTIVAS
Ao longo dos anos, observa-se a consolidação do BRICS como bloco de articulação econômica e política entre países emergentes, refletindo um esforço coletivo de refutação à estrutura hierarquizada do sistema internacional vigente desde Bretton Woods. Dessa maneira, a cooperação - à priori - entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul representa um movimento de busca por autonomia e equidade nas relações internacionais, sobretudo em um contexto de crescente insatisfação com a centralidade do dólar, o domínio das potências ocidentais sobre as instituições financeiras internacionais e a hegemonia estadunidense. Nesse cenário, a China surge como principal força propulsora dessa transformação, enquanto o Brasil mantém um papel diplomático estratégico ao defender a multipolaridade e o fortalecimento das economias do Sul Global. A proposta de utilização de moedas nacionais ou até mesmo de uma moeda comum dos BRICS simboliza um passo significativo rumo à construção de uma ordem econômica mais equilibrada e justa, ainda que sua concretização dependa de um alinhamento político e estrutural complexo entre os países membros.
Sendo assim, a discussão sobre uma nova moeda internacional e a desdolarização está para além da questão monetária, já que esta perpassa a materialização de uma mudança profunda na dinâmica do poder global. Isso porque, caso os BRICS avancem nesse propósito, o resultado poderá ser um realinhamento das regras de governança financeira, diminuindo a dependência em relação ao dólar e ampliando a participação das economias emergentes nos processos decisórios internacionais. Ao mesmo tempo, a criação de novos mecanismos de troca e financiamento, ancorados em princípios de cooperação e desenvolvimento sustentável, poderá reforçar o papel do bloco como catalisador de um novo paradigma de integração global. Em meio a tensões geopolíticas e desafios estruturais, esse movimento indica o início de um ciclo de maior autonomia econômica e política, no qual o Sul Global busca não apenas participar, mas influenciar ativamente os rumos da economia mundial.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Antes de possível encontro com Trump, Lula volta a defender comércio entre países com moedas próprias, sem o uso do dólar. G1 – Jornal Nacional, 23 out. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/10/23/antes-de-possivel-encontro-com-trump-lula-volta-a-defender-comercio-entre-paises-com-moedas-proprias-sem-o-uso-do-dolar.ghtml. Acesso em: 24 out 2025.
CNN BRASIL. Moeda dos BRICS afetaria economia dos EUA, diz ex-Fórum Econômico Mundial. CNN Brasil, 11 out. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/moeda-dos-brics-afetaria-economia-dos-eua-diz-ex-forum-economico-mundial/. Acesso em: 24 out 2025.
GARCIA, Ana; LANNES, Daniel; RESENDE, André. O Brasil nos BRICS: trajetória e desafios. Cadernos Adenauer, v. 24, n. 2, p. 2023-2, 2023. Disponível em: https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/110623251/Ka_Cad_2023_2_web_capitulo_4-libre.pdf?1705681342=&response-content-disposition=inline%3B+filename%3DO_Brasil_nos_BRICS_trajetoria_e_desafios.pdf&Expires=1761615577&Signature=dIsyhWWWoXfTkyBy9DCZRLqvceAvhJPDAFfaN9nBn5FWeWuGNPJVLIA81cWKWpGD~dFpT0cHvOFMvxgQnZDkKbUzh8FU-Hu3XgdLAJefBab077cGmkdxWUXsmXI8QPI-ndWl6g9mLmA0dvOSuamiwo~MQ2FsxrMCPm-68Eh0xAeyh5wxFHePJslom-Ruau198WM-FIlusrlInzK1Hqhitfm1rwC7kmtA6~iDqtciVmzdXcmhuMCvkUbTZ4pXOFA2qwCdw3mJZORTJ~NV8Sv5fu9e5IXJvxKVzRdMSy9mqYq4XtRQ2a6yRzABscsjmMeu9gbNwcpPaAX790kUIBLERg__&Key-Pair-Id=APKAJLOHF5GGSLRBV4ZA. Acesso em 20 out 2025.
NIU, Haibin. A grande estratégia Chinesa e os BRICS. Contexto Internacional, v. 35, p. 197-229, 2013. https://www.scielo.br/j/cint/a/pY8SpTsKSs3MvDdRNtjQD6v/?format=html&lang=pt
TARTER DA ROSA, Marcela. A POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA E A MULTILATERALIDADE: A INSERÇÃO INTERNACIONAL DO BRASIL COMO MEMBRO DO BRICS. Brazilian Journal of Law & International Relations/Relações Internacionais no Mundo, v. 1, n. 19, 2014. Disponível em: https://core.ac.uk/download/pdf/235995811.pdf. Acesso em 20 out 2025.






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