O ESPECTRO DA XENOFOBIA: PROTESTOS ANTI-IMIGRAÇÃO E A SUPERFICIALIDADE DO DEBATE
- Ana Beatriz Aguiar Palermo

- 19 de set. de 2025
- 4 min de leitura
Palavras-chave: Xenofobia, imigração, protestos, anti-imigração, crise, BREXIT, extrema-direita.

Sábado passado (13/09) mais de 100 mil pessoas participaram de um protesto no centro de Londres, como estimou a Polícia Metropolitana de Londres (Met). Antes disso recentes protestos anti-imigração vinham eclodindo em diversas cidades do Reino Unido. De acordo com a BBC News, os manifestantes ouviram uma série de discursos, incluindo um do famoso bilionário Elon Musk, por videoconferência. Na primeira metade do dia, o protesto seguia pacífico, no entanto, escalonou para pisódios violentos.
Segundo o portal de notícias G1, “os manifestantes carregavam a bandeira da União Britânica e a Cruz de São Jorge vermelha e branca da Inglaterra, enquanto outros traziam bandeiras americanas e israelenses e usavam os bonés MAGA do presidente americano Donald Trump. Eles entoavam slogans críticos ao primeiro-ministro Keir Starmer e carregavam cartazes, incluindo alguns com os dizeres "mande-os para casa". Alguns participantes trouxeram crianças.”
O pós-Brexit
Os protestos não são meros episódios isolados de insatisfação. Eles representam uma crise profunda e multifacetada que assola os britânicos: uma miscelânea de frustração pós-Brexit, políticas governamentais ineficazes, desafios econômicos severos e uma crise de identidade nacional que se arrasta há décadas.
Em primeiro lugar, é importante contextualizar o cenário pós-Brexit: A saída da União Europeia foi amplamente vendida ao público pelos que a defendiam como uma retomada do controle soberano, especialmente sobre as fronteiras. No entanto, a promessa de que a imigração seria drasticamente reduzida e perfeitamente gerenciada não se concretizou. Pelo contrário: o Reino Unido se deparou com números recordes de chegadas irregulares. Essa diferença entre a promessa e a realidade gerou um sentimento profundo de traição e frustração em certos segmentos da população, que veem na imigração irregular o símbolo do fracasso dos governantes em manejar a segurança das fronteiras.
Ao mesmo tempo, a ineficiência do governo em equilibrar a questão de forma humana e pragmática criou um sentimento ruim dentre aqueles que aprovam a imigração, mesmo que com ressalvas, já que parte dos políticos defendiam enviar requerentes de asilo para processamento em Ruanda. Essa política, além de ser eticamente questionável e legalmente problemática, mostrou-se inviável na prática, gerando mais polarização, e não soluções.
A extrema-direita
Enquanto o Estado não parece ter capacidade de gerenciar o fluxo migratório com competência, a narrativa de "invasão", propagada por grupos de extrema-direita, ganha terreno fértil entre cidadãos que se sentem injustiçados.
Nesse perigoso ambiente político surgem grupos extremistas (como o Britain First, British Movement e National Front), que se alimentam e se nutrem. Eles instrumentalizam o legítimo descontentamento com serviços públicos sobrecarregados e o aumento do custo de vida para canalizar a raiva dos cidadãos para um bode expiatório: o imigrante -especialmente aqueles do sul global.
Eles empregam táticas de desinformação nas redes sociais, amplificando casos isolados de criminalidade e distorcendo dados para criar um clima de pânico moral. Os protestos são muitas vezes iniciados online e acabam atraindo não apenas militantes ideológicos, mas também pessoas confusas e economicamente vulneráveis, que encontram na xenofobia uma explicação simplista para problemas complexos e históricos.
A sociedade
A reação da sociedade civil e das autoridades quanto às manifestações anti-imigração é ambígua. De um lado, há fortes contramanifestações, com cidadãos defendendo os valores de acolhimento e diversidade. De outro, a resposta policial, por vezes, é problemática, e a cobertura midiática de certos tablóides frequentemente alimenta o sensacionalismo em torno do tema, em vez de um debate humanizado, racional e profundo.
Problemas complexos exigem debates profundos
Em síntese, os protestos anti-imigração no Reino Unido são a ponta do iceberg de um mal-estar nacional alimentado por promessas não cumpridas, falhas governamentais crônicas e uma economia em dificuldades.
A sociedade civil tem grande responsabilidade em cobrar mudanças reais e alcançáveis de seus governantes. Ela há de refletir se é a imigração que é o problema, ou se são sucessões de promessas não cumpridas, especulação imobiliária, privatizações e aumento dos custos que realmente complicam a vida dos cidadãos britânicos. Mesmo aqueles a favor de imigrantes devem perceber que combater a xenofobia exige mais do que apenas condená-la; é imperativo escancarar sua insensatez.
Además é necessário que o Estado enfrente suas próprias incompetências - oferecendo vias legais e seguras para a imigração, agilizando o processamento de pedidos de asilo e, acima de tudo, reinvestindo nas comunidades mais pobres e marginalizadas.
Sem abordar causas sociais complexas e tratando a imigração de modo superficial, o Reino Unido se arrisca a ver sua sociedade, historicamente plural, ser rasgada por divisões cada vez mais profundas e perigosas.
Bibliografia
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