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O IMPERIALISMO E A CRISE ANGLÓFONA NOS CAMARÕES


PALAVRAS-CHAVE: África; Camarões; Ambazônia; Imperialismo; Colonialismo; Século XX; Século XXI; Herança colonial.


Fonte: Imago-Imago/C. Spicker
Fonte: Imago-Imago/C. Spicker

RESUMO

O texto por sequência apresenta estudo breve da história recente dos Camarões e dos processos de colonização do continente africano pós-partilha. Exprime visão de análise marxista-leninista na observação dos dados e conceitos relativos à construção do cenário proposto, tomando partida dos escritos em O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, de Vladimir Lenin, na análise da contemporaneidade e suas influências na crise separatista da Ambazônia e eventos relacionados.


INTRODUÇÃO

Anteriormente à Conferência de Berlim, ocorrida em 1884 e tendo sido importante critério à divisão neocolonial do continente africano pelas potências europeias, o teatro político africano era formado por reinos, sultanatos e confederações étnicas que possuíam suas próprias lógicas de organização e territorialidade. As fronteiras não eram linhas rígidas, mas zonas que se adaptavam a fatores culturais e comerciais, moldando construções sociais internas e as respectivas interações locais.

Nisto, costurado pelos fluxos neocoloniais do século XIX e XX, o continente se viu desfigurado de suas precedentes características sócio-políticas, suscetível à completa remodelação aos moldes do continente invasor. Respectivo cenário engloba fatorial de grande importância nos conflitos atualmente presentes na massa africana, promulgadores, portanto, das intrínsecas problemáticas resultantes da Crise Anglófona nos Camarões.

Por desta, configuradora de conflito bélico intermitente entre as Forças de Defesa da Ambazônia (FDA) e Forças Armadas dos Camarões (FAC), com a primeira em manifestação de separacionismo regional nas regiões Noroeste e Sudoeste do país.


DO IMPERIALISMO

Ao iniciar o sexto capítulo, Lenin exibe as pesquisas geográficas de Alexander Supan, relacionando-as às temáticas do estudo da expansão do Estado europeu burguês:

 


PERCENTAGEM DE TERRITÓRIO PERTENCENTE ÀS POTÊNCIAS COLONIAIS EUROPEIAS E AOS ESTADOS UNIDOS

Regiões

1876

1900

Diferenças

Em África

10,8%

90,4%

79,6%

Na Polinésia

56,8%

98,9%

42,1%

Na Ásia

51,5%

56,6%

5,1%

Na Austrália

100%

100%

--

Na América

27,5%

27,2%

0,3%


Em seguida, utiliza números atualizados de Otto Hubner para formular a seguinte tabela:



Em análise, determina-se a proporção desigual do relacionamento colônia-metrópole da exploração dos territórios ultramarinos no início do século XX. Por disto, com as colônias não apenas contendo mais habitantes e maior território relativo, como também a maior parte das extrações de recursos primários (ULIANOV, 1984).

Por desta forma, Lenin chega a conclusão que a junção dos capitais industriais e financeiros-bancários, elevados pela dominação dos territórios coloniais, fez terreno perfeito à extensão do monopólio capitalista para limites além dos físico-materiais produzidos, agora manifestado também em propriedade imperial externa e humana, visto que os povos africanos e asiáticos não eram considerados cidadãos das potências exploradoras (ULIANOV, 1984).

Assim, elaborando uma sistemática geral, define-se as diversas relações entre pequenos e grandes Estados, congruente às relações entre Estados soberanos e colônias, partindo caminho para o modelo centro-periferia e para o desenvolvimento das primeiras atuações da Geografia Crítica.


DA HISTÓRICA CAMARONENSE

Inicialmente invadido por colonos alemães, os Camarões fizeram parte do Império colonial germânico até o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, quando foram divididos pelos poderes da Entente. Com atuação da Liga das Nações, garantiu-se que a Grã-Bretanha ficasse contente suficientemente com os novos domínios na Tanzânia, Namíbia e Papua para que a transferência de poder nos Camarões pudesse ocorrer à França, que conseguiu juntamente os direitos sobre a Togolândia e consolidação oficial do poder em Marrocos, pós crise de Agadir.

Contudo, os territórios ao norte ainda foram palco de litígio entre os aliados, que resultou na concordância francesa em ceder à coroa britânica. Neste contexto, formam-se os protetorados coloniais do Cameroun, na parte francesa, e os de Southern e Northern Cameroons, na repartição britânica. O último destes, no extremo norte, uniria-se à Nigéria pós-independência.

Em perspectiva, a divisão dos povos entre administrações com idioma, leis e culturas diferentes fez por semear contradições nacional-culturais profundas e presentes até os dias atuais, subordinando regiões inteiras ao capital estrangeiro. A equitativa ambazoniana, o que se chamava Southern Cameroons, desenvolveu uma identidade cultural e administrativa anglófona, enquanto o restante do país permaneceu majoritariamente francófono. Neste ponto de vista, essa divisão não decorre de uma escolha local, mas de políticas externas impostas pela lógica imperialista europeia.

Continuamente, a artificialidade da classe dominante mostra seu reflexo nas fronteiras da geografia política do continente e, por disto, nos Camarões. Esta que, necessitada do Estado para perdurar, utilizou das divisões coloniais existentes no processo de independência. Assim, faz-se concreto a problemática Anglófona forçada à união no processo independentista, que determina novamente independência da parente francófona.

Mesmo assim, a pressão da superestrutura sobre o processo de mastigação cultural que sofre a África instiga a total desconsideração das outras 230 línguas nativas do povo cameronense. Visualizando um padrão extenso de influência europeia nas tribulações africanas, ainda que teoricamente libertados no século XX. Marcando as evidências para denunciar o contínuo colonialismo imperial, responsável pelas feridas expostas do continente, agora mascarado na política e cultura.

Neste contexto, evidencia-se a guerra civil-militar nos Camarões intrinsecamente associada à lógica imperialista que moldou os Estados modernos africanos. A manutenção de fronteiras artificiais, a dependência econômica e a centralização política constituem elementos herdados do colonialismo e reconfigurados pelo capitalismo contemporâneo, emoldurados na sistemática imposta pela classe de Estados dominantes. A situação da Ambazônia e o embate linguístico-cultural, destarte, surgem não como fenômenos isolados, mas partindo de um padrão amplo de conflitos resultantes da imposição de estruturas externas às realidades africanas.


  Kamerun alemão   Camarões Britânicos   Camarões Franceses   República dos Camarões; Fonte: https://web.archive.org/web/20070711185312/http://unimaps.com/cameroon1914/mainmap.gif
  Kamerun alemão   Camarões Britânicos   Camarões Franceses   República dos Camarões; Fonte: https://web.archive.org/web/20070711185312/http://unimaps.com/cameroon1914/mainmap.gif

CONCLUSÃO

A divisão do continente africano não apenas desconsiderou as dinâmicas sociais, culturais e territoriais locais como, outrossim, estruturou um sistema de dependência, persistindo no cerne dos conflitos contemporâneos e no trajeto desenvolvimentista africano até os dias atuais. O imperialismo, enquanto fase superior do capitalismo financeiro-industrial, exprime fundamental papel na prolongação das desigualdades sociopolíticas induzidas nas anteriores colônias exploradas.

Disto, parte-se a exploração do contexto ambazoniano e suas motivações primárias. Levando, portanto, a consideração de todas as outras realizações linguísticas no território camaronês, fundamentalmente oprimidas desde a chegada dos europeus à massa continental e substituídas por compreensões tradicionalmente eurocêntricas. Por destas, responsáveis à combustão do maquinário ideológico-estrutural de exclusão da identidade africana.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • LENINE, Vladimir Ilitch. O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. Marxist Internet Archive, 1984. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1916/imperialismo/index.htm. Acesso em: 27 nov. 2025.

  • NETO, Getúlio Alves De Almeida. As divisões linguísticas no conflito em Camarões: o movimento separatista da República da Ambazônia. Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional, 2020. Disponível em: https://gedes-unesp.org/as-divisoes-linguisticas-no-conflito-em-camaroes-o-movimento-separatista-da-republica-da-ambazonia/. Acesso em: 26 nov. 2025.

  • LENINE, Vladimir Ilitch. The Right of Nations to Self-Determination. Marxist Internet Archive, 1972. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1914/self-det/. Acesso em: 27 nov. 2025.

  • REPUBLIC of Ambazonia. Disponível em: https://www.republicofambazoniagov.org/. Acesso em: 28 nov. 2025.

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