OPERAÇÃO GLADIO E O EXÉRCITO TERRORISTA DA OTAN
- Francesco Battista Casali

- 10 de out. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 24 de out. de 2025
Palavras-Chave: OTAN, Operação Gladio, Stay Behind, Terrorismo, CIA, EUA, Itália

A OTAN despensa apresentações, a Organização do Tratado do Atlântico Norte já é de notório saber para grande parte da população, sua fama é muitas vezes associada a livros de história e seu contexto de criação da guerra fria, onde em um mundo pós-guerra fria no qual o ocidente estadunidense deu-se como vitorioso, é muito comum cometer o simplório erro de associar o vitorioso ao justo. Entretanto, o internacionalista deveria ser consciente dessa diferenciação e conhecer um pouco do longo histórico de uma das organizações internacionais mais faladas e importantes do mundo. Das muitas histórias preocupantes referentes a OTAN, uma que tende a ser ofuscada é a da operação Gladio, promovida pela OTAN, a qual juntamente dos EUA e Itália, patrocinava grupos terroristas na Itália entre os anos 50 e 80. Por este artigo busco expor essa história esquecida da OTAN que me encontrei pesquisando nas últimas semanas na minha vida acadêmica.
Estratégia do Medo O contexto italiano dos anos 60 até os 80, ficou conhecido como Anni di Piombo, ou “Anos de Chumbo” em português, durante os quais a península itálica foi marcada por um período de instabilidade política e terrorismo doméstico como nunca visto e que até hoje é lembrado e tem repercussões tanto na mídia, como na política e na vida da população. Foi assim nomeado o período, similarmente aos anos de chumbo brasileiro, devido à sensação da população de viver um clima “pesado como chumbo”. A Estratégia do Medo, não exclusiva ao contexto italiano, consiste em manter a população aterrorizada sobre um tópico, grupo de pessoas ou inimigo em geral, de maneira artificial, isso foi feito na Itália da época com o terrorismo e o medo do comunismo. O mais notável dos atentados, sem sombra de dúvidas foi a Strage di Piazza Fontana [Massacre da Praça Fontana], dia 12 de dezembro de 1969 onde uma bomba explodiu no salão principal do Banco Nacional da Agricultura de Milão, na Praça Fontana, às 16:30, deixando 17 mortos e 88 feridos. Praça Fontana infelizmente não viria a ser a última. Dia 4 de agosto de 1974, naquele que viria a ser conhecido como Strage dell’Italicus [Massacre do Italicus], outra bomba explodiu no trem expresso Italicus, que saia de Roma, com destino a Munique, deixando 12 mortos e 41 feridos, os terroristas deixaram uma carta na ocasião, se vangloriando pelo seu poder, sua capacidade de evadir as autoridades e ameaçando a democracia. As atrocidades continuaram, no dia 2 de agosto de 1980 uma explosão atingiu a sala de espera na estação de trem da cidade de Bolonha, marcando os livros de história com mais 85 mortos e 200 feridos, naquele que, similarmente aos anterior, veio a ser conhecido como Strage di Bologna [Massacre de Bolonha], sendo esse um dos maiores atentados terroristas que a Europa já viu em todo o século XX. De acordo com relato do senador Giovanni Pelegrino, presidente da comissão parlamentar italiana que investigou a operação Gladio e os massacres, entre janeiro de 1969 e dezembro de 1987, tiveram mais de 14591 casos de violência com motivações políticas na Itália, deixando para a história, no total, 491 mortos e 1181 feridos.
Todos esses atentados, que envolviam o Ordine Nuovo, grupo terrorista de extrema-direita da época, compartilham uma semelhança sombria que já então servira para alimentar teorias conspiratórias que anos depois viriam a ser validadas. Durante as investigações dos diversos casos listados, assim como em muitos outros, repetidamente, foi notado o esforço dos Carabineiros (equivalente à polícia local) e da SIFAR [Serviço de Informações das Forças Armadas], posteriormente renomeada para SISMI [Serviço de Inteligência e Segurança Militar], para ocultar os envolvidos, e encerrar os processos jurídicos. Em contraponto, outro grupo terrorista que já surgira na época, que era constantemente apontado como responsável pela mídia, até provado o contrário, a Brigatte Rosse [Brigadas Vermelhas], de extrema-esquerda, teve diversos membros presos, enquanto a extrema direita saia ilesa após todos os seus ataques. O que foi a operação Gladio A inconsistência das forças da ordem italianas ao lidar com os terroristas gerou muito debate, e investigações, eventualmente em um mar de perguntas, algum peixe fisgou o anzol, em 1984 Vincenzo Vinciguerra, membro da Ordine Nuovo, foi forçado a depor pelos seus ataques terroristas, e em seu discurso revelou a existência de uma espécie de mecanismo interestatal, proveniente de fora da Itália, através do qual diversos policiais, juízes, ministros e membros dos serviços secretos, apoiavam e escondiam os ataques dos holofotes da mídia e das balanças da justiça, assim explicando a existência da Gladio e seu suporte fornecido pela OTAN. Na época o depoimento de Vinciguerra foi extremamente alarmante, porém desconsiderado por muitos dada sua posição como um terrorista neofascista. Apenas nos anos 90, com o fim da guerra fria, muitos documentos antigos foram desarquivados e a população teve acesso a uma biblioteca muito mais ampla, confirmando a verdade por trás das palavras de Vinciguerra. O envolvimento estadunidense na política italiana da época, patrocinando o partido Cristão Democrata (DCI) já foi amplamente confirmado, da mesma forma como o governo soviético patrocinava o partido Comunista (PCI). Contudo, a extensão da intervenção de Washington na península itálica, vai muito além do palco político, através da operação Gladio, parte do amplo projeto Stay Behind, o qual via a OTAN e CIA, recrutar, organizar, patrocinar e acobertar grupos terroristas por toda a Europa. A operação Gladio em particular é o nome dado para a vertente Italiana do projeto Stay Behind (a palavra Gladio vem do latim referindo-se a uma espada curta do tempo da Roma antiga que foi fundamental para a expansão do império). A Stay Behind em sua essência, era mais um pedaço da extensa Guerra-Fria, onde a OTAN e EUA, buscavam através da operação Gladio, organizar grupos terroristas, rebeldes, que na ocasião de uma invasão soviética, poderiam auxiliar as forças armadas americanas a retomar uma Itália invadida, seguindo o exemplo da MI-6 na segunda guerra mundial. Por esse motivo, a operação abrangia toda a Europa, Alemanha, Dinamarca, Finlândia, França, Áustria, Bélgica, Países Baixos, todos possuíam operações análogas à Gladio, também parte da Stay Behind que, porém, diferentemente do caso italiano, não foram tão chamativas em suas atividades e, portanto, pouco se sabe sobre elas até hoje.
A existência da operação Gladio é inquestionável, entretanto, a sua extensão e detalhes são debatíveis. Serve como exemplo a própria Brigatte Rosse mencionadas anteriormente, sendo um grupo terrorista, notório da extrema-esquerda, é quase irônico um projeto que supostamente servia para combater a ameaça soviética, patrocinar grupo que simpatiza com a URSS. A associação entre OTAN e o grupo nunca foi confirmada, porém muitos argumentam a favor dado que é altamente sugerido que a OTAN, CIA e SISMI tinham informações e poderiam ter acabado com a Brigate Rosse, porém escolheram não interferir, pois contribuíam para a estratégia do medo. Adicionalmente, a própria Brigate Rosse nunca expôs a operação Gladio, assim possivelmente sugerindo que havia um jogo de interesse envolvido, e que recebiam auxílio da OTAN.

Reflexões Finais Em suma, os ataques terroristas da extrema-direita na Itália, eram patrocinados pela OTAN, EUA e o próprio governo italiano. Um governo patrocinar terrorismo, não deveria ser surpresa para nenhum internacionalista ou historiador, porém, admito minha surpresa e indignação, até mesmo como cidadão italiano, ao entender esse pedaço sombrio de nossa história, onde o dinheiro dos italianos estava sendo afunilado para patrocinar terrorismo contra o próprio país, o qual, diga-se de passagem, para quem talvez tenha esquecido, a Itália foi um dos estados fundadores da OTAN em 1949, assim acrescentando ainda mais sal à ferida.
Por esse artigo busquei entender e explicar de maneira resumida, o que foi a operação Gladio, sua origem, impacto e problemática, a OTAN como organização internacional é alvo de debate recorrente no ambiente acadêmico e até mesmo leigo, o caso da Gladio sem sombra de dúvidas acende uma luz negativa sobre a organização, porém gostaria de enfatizar que nesse artigo eu busquei criticar a operação Gladio (e Stay Behind) em particular, não a OTAN como um todo, o qual seria um debate cuja extensão da pesquisa vai muito além de minha intenção para essa ocasião.
Para quem se interessou no assunto e procura um maior entendimento do tema ou até mesmo uma leitura nichada muito interessante, recomendo as obras do escritor suíço Daniel Ganser que fez uma cobertura extensa sobre a operação Gladio nos livros The Ghost of Machiavelli: an approach to Operation Gladio e NATO’s Secret Armies: Operation Gladio and Terrorism in Western Europe, é até hoje uma das, se não a melhor fonte para entender essa história, não terminei a leitura, porém me foi de grande ajuda para entender o tópico.
Fontes Bibliográficas: COLLETIVA. 12 dicembre 1969. La strage di Piazza Fontana. Collettiva, 12 dez. 2021. Disponível em: https://www.collettiva.it/copertine/italia/12-dicembre-1969-la-strage-di-piazza-fontana-wvpzi9vu. Acesso em: 10 out. 2025. FONDAZIONE FELTRINELLI. Il conflitto nascosto: Ordine Nuovo e Piazza Fontana. Disponível em: https://fondazionefeltrinelli.it/pubblico/il-conflitto-nascosto-ordine-nuovo-e-piazza-fontana/. Acesso em: 22 set. 2025.
GANSER, Daniele. The Ghost of Machiavelli: an approach to Operation Gladio and 46PFMK3A5E. Disponível em: https://scispace.com/pdf/the-ghost-of-machiavelli-an-approach-to-operation-gladio-and-46pfmk3a5e.pdf. Acesso em: 22 set. 2025.
GANSER, Daniele. NATO’s Secret Armies: Operation Gladio and Terrorism in Western Europe. London: Frank Cass, 2005.
GLOBO. O sequestro e o assassinato a sangue frio de Aldo Moro. Disponível em: https://oglobo.globo.com/blogs/blog-do-acervo/post/2023/03/o-sequestro-e-o-assassinato-a-sangue-frio-de-aldo-moro.ghtml. Acesso em: 23 set. 2025.
IMPERIAL WAR MUSEUM (IWM). NATO: the origins of a political and military alliance. Disponível em: https://www.iwm.org.uk/learning/nato-the-origins-of-a-political-and-military-alliance. Acesso em: 22 set. 2025.
MINISTERO DELLA CULTURA (Itália). Strategia della tensione. Disponível em: https://memoria.cultura.gov.it/en/w/strategia-della-tensione. Acesso em: 22 set. 2025.
MINISTERO DELLA CULTURA (Itália). Strage di Piazza Fontana (Milano). Disponível em: https://memoria.cultura.gov.it/la-storia/-/event/fact/be3c59cc-71ff-4f64-a3e2-912d9595e559%237ac9e301-33a9-4363-8137-8b50b8fd11fc/Strage+di+piazza+Fontana+%28Milano%29. Acesso em: 22 set. 2025.
MONDADORI. La strage di Piazza Fontana. Disponível em: https://www.mondadori.it/percorsi-di-lettura/la-strage-di-piazza-fontana/. Acesso em: 22 set. 2025. INSTITUTO NAZIONALE FERRUCCIO PARRI. La strage di Bologna: Percorso tematico sulla “Giorno della memoria” delle vittime del terrorismo e delle stragi. Disponível em: https://www.reteparri.it/percorsi-tematici/italia-repubblicana/la-strage-di-bologna/. Acesso em: 10 out. 2025.






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