SEM DEUSES, SEM MESTRES: O EXÉRCITO ANARQUISTA DA UCRÂNIA
- Lucas Zanforlin
- 31 de out. de 2025
- 5 min de leitura
PALAVRAS-CHAVE: Europa; Ucrânia; Rússia; União Soviética; Revolução Russa; Nestor Makhno; Anarquismo; Ciência política.

RESUMO
O corrente artigo faz por visão a utilização de situacionais da Revolução Russa e os acontecimentos posteriores à Guerra Civil ao aprofundamento dos fenômenos da Makhnovtchina. Por demais, faz uso das ocorrências de Nestor Makhno à explicação da política detrás a sistemática sul-ucraniana no século XX e a teoria central do anarquismo ideológico.
INTRODUÇÃO
A Makhnovtchina foi uma entidade territorial autônoma, constituída, em maior parte, por primordiais ideais anarquistas e autossuficientes. Foi um dos principais órgãos popularizadores do anarquismo no século XX, organizando-se durante a Guerra Civil Russa de 1917, persistindo até 1921. Nesta, aplica-se passibilidade de analítica teórica dos acontecimentos pós-Primeira Guerra Mundial, recorrendo-se próprio à pesquisa política.
DO ANARQUISMO
Visando a compreensão dos fenômenos procedentes à Revolução Russa e o surgimento da Insurgência Makhnovista na Ucrânia, encontra-se a intrínseca definição do movimento anarquista. Por esta, faz definição em teoria política e social de cessação da necessidade de qualquer manifestação de autoridade estatal, advogando pela construção de uma sociedade fundamentalmente cooperativa e de livre-associação (SCHWARTZ, 1998).
Para todos os efeitos, o anarquismo se condensa na luta contra todo tipo de manipulação e controle externo, promulgador, por disto, de autogovernança local (SCHWARTZ, 1998). Assim, vê pelas instituições do Estado as mais puras formulações de coerção da classe dominante, que, na perspectiva ideológica, purgam a classe trabalhadora do direito à humanidade (SERGE, 1908):
O ESTADO: uma entidade impessoal, irresponsável, que justifica apenas a si mesmo o direito de imperar sobre a vida humana. A PROPRIEDADE: uma instituição criminosa que se organiza para que apenas algumas pessoas tenham o que todas deveriam. Permitindo que estas poucas imponham a exploração do trabalho na maioria. A RELIGIÃO: o controle da consciência e das mentes. Nesta, justifica-se qualquer forma de injustiça por mentiras multiformes. AS LEIS: ridículas e vãs, formadas por insensatez criminosa de desejo de conter toda a vida em seus limites estreitos. (SERGE, 1908, p.54, tradução nossa)
DA REVOLUÇÃO VERMELHA
A Revolução de Outubro de 1917 culminou na tomada de poder bolchevique que, por sua vez, resultou na fragmentação do Governo Provisório russo em poderes separacionistas e contrarrevolucionários. Mantendo a autoridade sob Petrogrado, hodiernamente São Petersburgo, os Vermelhos, liderados por Vladimir Ilyich Ulianov, fizeram da explosão do conflito o palco ideal para a disseminação dos ideais leninistas e para a destruição tanto da linha hereditária Romanov, quanto para as oposições bélicas militarmente alimentadas pelas potências da Grande Guerra.
Continuamente, estes que se apresentaram dependentes de auxílio internacional para combate da causa soviética passaram a ser generalizados como Exército Branco. Mesmo assim, não tornaram a manter unidade militar, muito menos política, visto que eram compostos de diversos batalhões distintos, com logística extremamente prejudicada e comunicação grandemente afetada. Disto, tomaram vantagem os Vermelhos que, conquistando domínio sobre Moscou, determinaram superioridade organizacional que perduraria até o êxito soviético.
Neste contexto, os que mantiveram oposição sincronicamente aos Brancos e Vermelhos aproveitaram do foco no front Ural, delimitação Branca, para disseminação de movimentos alternativos. A partir destes, contempla-se o Exército Negro.
“MORTE AOS OPRESSORES DOS TRABALHADORES!”
Diante início da Guerra Civil Russa, em Petrogrado, fez com que selecionados trabalhadores perdessem perspectiva de apoio aos bolcheviques soviéticos após as opressões relatadas contra a classe respectiva em nome da própria classe trabalhadora. Ainda assim, grande parte da comunidade laboral instituiu contínuo apoio, justificado pela visão de que, na falta dos bolcheviques, ter-se-ia movimentos contrarrevolucionários inadmissivelmente mais autoritários (SCHWARTZ, 1998). Isto, porém, não se estabeleceu padrão no sul da Ucrânia, em Huliaipole.
Percebendo a dominação bolchevique como um simples câmbio do locus de poder czarista para um falso proletariado, os makhnovistas, aproveitando do caos suscetivo da Revolução, organizam-se em 1918 na criação do Exército Insurgente, também referido como Exército Negro. Por exceção a algumas causalidades de cooperação bolchevique, os anarquistas ucranianos lutaram contra todos os lados da guerra civil, sendo os Verdes, os Brancos, os Vermelhos, os Azuis e todos as demais organizações exteriormente financiadas.
Nisto, inspirados e aconselhados por Nestor Ivanovitch Makhno, iniciam batalhas contra os restantes alemães do Brest-Litovsk, tratado que determinava a saída da Rússia da guerra, visando a derrubada do governo fantoche imposto e a reversão dos títulos de nobreza promulgados pelo Império de Berlim. Para isto, fez-se conflito proto-guerrilha objetivado unicamente à caça de indivíduos da nova classe dominante alemã, utilizando da cobertura florestal da região para camuflagem.
Aproveitando-se do final da Grande Guerra e com a derrota germânica, instaurou-se em decorrência uma série de congressos para determinar o futuro da região. Makhno, comprometido à milícia responsável pela expulsão dos alemães, encorajou a autogestão proletária e a dissolução das estruturas oligárquicas que compunham o anterior Império. Por disto, tornou-se uma das primeiras manifestações anárquicas desde a ruptura entre anarquistas e marxistas em 1872. Capacitou-se a partir da independência servil, com o exército makhnovista utilizado exclusivamente como força militar, banida de qualquer privilégio político-econômico:
Por mais que a deserção fosse alta em ambos os exércitos Vermelhos e Brancos, os makhnovistas, visto a reputação deste [Makhno] como um corajoso do povo que já tinha mostrado muitas vezes que representava seus interesses, quase não sofriam de deserção. Quando o combate se mostrava particularmente fútil, os de Makhno enterravam suas armas, voltavam às vilas e aldeias e tomavam trabalho nos campos, aguardando sinal de retornar à ativa. (SCHWARTZ, 1998, tradução nossa)
O SONHO DA DIELO TRUDA
Os Vermelhos, considerando a integração do território sul-ucraniano mantendo as políticas autogovernantes de Makhno decidiram por, na realidade, atacar diretamente os anarquistas que, após intensa luta de sobrevivência contra os alemães e Brancos, encontravam-se em desvantagem. Portanto, via-se o sonho da causa operária anarquista terminar com o rompimento dos laços com os comunistas e o subsequente ataque mercenário às instalações de Makhnovtchina. Movidos, entre motivos, pela consolidação das posições soviéticas nas planícies siberianas e a forte onda de deserções militares a favor da admissão ao Exército Negro.
Com todas as aldeias perdidas e seus batalhões em fuga, Makhno segue em autoexílio para a Romênia e, posteriormente, para Paris. Observando, por tudo, a dissolução massiva de uma formação que, em seu auge, chegava a quase 100 mil indivíduos¹, objetivados a lutar contra a totalidade da autoridade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo de caso da Makhnovtchina e seus preâmbulos se leva fundamental para o entendimento da situação política anarquista no século XX e, outrossim, no século XXI. Decretando linha de ação clara entre os fluxos revolucionários da Guerra Civil Russa e os desenvolvimentos do Período Entreguerras que viriam a ter consequencialidade no plano contemporâneo atual.
Ademais, reacende o entendimento das motivações russo-soviéticas e o desenvolvimento de um período de vinte anos de crise militar no leste europeu, promulgando questões sociais na histórica ucraniana e sua afiliação à Moscou.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SCHWARTZ, Heather-noël. The Makhnovists & The Russian Revolution: Organization, Peasantry & Anarchism. The Anarchist Library, 1998. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/heather-noel-schwartz-the-makhnovists-the-russian-revolution. Acesso em: 29 out. 2025.
AVRICH, Paul. Anarchist Portraits. Princeton: Princeton University Press, 1988.
MIKHAIL Bakunin. Marxist Internet Archive, 2013. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/bakunin/index.htm. Acesso em: 29 out. 2025.
BAKUNIN, Mikhail. Statism and Anarchy: The Struggle of the Two Parties in the International Working Men’s Association. The Anarchist Library, 1873. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/mikhail-bakunin-statism-and-anarchy. Acesso em: 29 out. 2025.
MARKUSSON, Kolbjǫrn. To what extent was Makhno able to implement anarchist ideals during the Russian Civil War?: The Struggle of the Two Parties in the International Working Men’s Association. The Anarchist Library, s.d. Disponível em: https://theanarchistlibrary.org/library/kolbj-rn-markusson-to-what-extent-was-makhno-able-to-implement-anarchist-ideals-during-the-russ.lt.pdf. Acesso em: 29 out. 2025.
PATTERSON, Sean David. The Makhnos of Memory: Mennonite and Makhnovist Narratives of the Civil War in Ukraine, 1917-1921. Department of History Joint Master’s Program University of Manitoba Winnipeg, 2013. Disponível em: https://files.libcom.org/files/Sean_Patterson.pdf. Acesso em: 29 out. 2025.
MAKHNO, Nestor. The Struggle Against the State and Other Essays. s.l: AK Press, 2001.
¹MAKHNO, Nestor. The Struggle Against the State and Other Essays. s.l: AK Press, 2001.






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