top of page

CUBA, OPERAÇÃO CARLOTA E A INTERVENÇÃO EM ANGOLA DURANTE A GUERRA FRIA

Palavras-chave: Cuba; Operação Carlota; Angola; Guerra Fria; internacionalismo; Movimento Não-Alinhado

Fidel Castro durante sua visita a Angola, 1977. Fonte: Joaquín Viñas.
Fidel Castro durante sua visita a Angola, 1977. Fonte: Joaquín Viñas.

INTRODUÇÃO Dentro da historiografia que procura compreender a Guerra Fria, o foco tradicional recai sobre as grandes potências e suas ações no sistema internacional, com ênfase em guerras por procuração, apoio a golpes de Estado e estratégias de expansão de influência por parte dos Estados Unidos e da União Soviética. Durante o processo de descolonização africana nas décadas de 1960 e 1970 – assim como nos anos 1980 na Namíbia e Zimbábue –, essa dinâmica não se limitou ao comportamento das grandes potências. Ela também foi moldada pela atuação de Estados médios e pequenos, especialmente em um contexto de ascensão do Movimento Não-Alinhado (MNA) desde sua primeira reunião em Belgrado em 1961 e de suas raízes na Conferência de Bandung de 1955.

Neste contexto de maior protagonismo de pequenos e médios Estados do Terceiro Mundo, destaca-se a política externa de Cuba. A partir dos anos 1960, a ilha realizou uma série de intervenções militares e missões técnicas e de cooperação internacional pelo mundo, incluindo o envio de 36.000 tropas para Angola e 16.000 para a Etiópia, além de operações em outros países africanos como Moçambique, Guiné-Bissau e Benin (GLEIJESES, 2006. PÉREZ JR., 2015). Estas operações mobilizaram contingentes civis como médicos, professores e engenheiros que atuaram em projetos de reconstrução estatal (GLEIJESES, 2006). Estas iniciativas indicam uma capacidade de projeção internacional desproporcional para um Estado das dimensões de Cuba e, portanto, requerem um estudo mais aprofundado.

Para analisar os motivos e as consequências da intervenção cubana em Angola, este artigo examina: 1) o contexto angolano até sua independência em 1975; 2) o desenvolvimento da política externa cubana até esse momento, bem como a intervenção militar e os projetos civis que a acompanharam.

Argumenta-se que a Operação Carlota evidencia a capacidade de Estados de menor dimensão relativa a grandes potências de influenciar conflitos durante a Guerra Fria, contribuindo para desafiar as interpretações bipolares do período.


ANGOLA – DE COLÔNIA À ESTADO INDEPENDENTE

A formação de Angola como Estado é diretamente ligada à longa experiência colonial portuguesa no século XVI e consolidada ao longo do século XIX (BIRMINGHAM, 2015). Inicialmente estruturado em enclaves costeiros como Luanda e Benguela, a presença portuguesa esteve associada ao tráfico atlântico de pessoas escravizadas e, posteriormente, no século XIX, a uma economia colonial baseada na produção de bens primários e na extração de recursos brutos como diamantes (ibid.).

Ao longo do século XX, especialmente sob o regime totalitário de António de Oliveira Salazar nos anos 1930, a administração colonial intensificou políticas de controle social, exploração econômica e segregação, apesar de discursos oficiais como o lusotropicalismo (ibid.). Este modelo contribuiu fortemente para o aprofundamento das desigualdades e para o surgimento de movimentos nacionalistas a partir da década de 1950 (ibid.).

A partir de 1961, a política de extrativismo puro e de repressão em massa, com um Estado português que afirmava que a fome era um “fragmento da imaginação Bantu”, ocorre um levante e, rapidamente, a formação de partidos de libertação nacional, dentre os quais o Frente Nacional pela Libertação de Angola (FNLA) e, posteriormente, o Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) (ibid.).

É neste contexto de movimentos de independência e de conflitos de guerrilha que Angola recebe apoio inicial cubano, porém, é apenas em 1975, um ano após a queda do regime militar em Portugal, que a Angola e outros Estados lusófonos como Moçambique recebem sua independência de fato (ibid.). Obtendo sua independência, a Angola se viu fragmentada em três polos distintos, sendo eles o MPLA, FNLA e UNITA, com o MPLA sendo reconhecido como o principal partido por sua liderança histórica, seu controle militar e sua disciplina, além de seu maior controle territorial e posse de Luanda, antiga capital colonial e nova capital do Estado independente (MARQUEZ, 1977. GLEIJESES, 2006. BIRMINGHAM, 2015).


CUBA, SUA POLÍTICA EXTERNA, E A OPERAÇÃO CARLOTA

A política externa cubana, a partir de 1959, é marcada por um forte discurso de internacionalismo e de cooperação internacional. Em relação ao continente africano, essa atuação se manifesta desde 1961 com apoio à Argélia e, posteriormente, no conflito com Marrocos em 1963 (GLEIJESES, 2010). A partir de 1965, Cuba começa a auxiliar movimentos de libertação nacional no Congo-Kinshasa, no Cabo Verde e Guiné-Bissau e em Moçambique, com Cuba enviando uma missão para Guiné-Bissau que dura de 1966 até 1974, sendo a operação de maior envergadura e duração até a intervenção em Angola em 1975 (GLEIJESES, 2010. PÉREZ JR., 2015).

Esta intervenção cubana foi oficialmente chamada de Operação Carlota devido à uma cativa escravizada em Cuba no século XIX (PRUNELLO, 2017). A operação contou com mais de 36.000 pessoas que contribuíram para a consolidação do Estado angolano após a independência em um contexto de guerra civil com três partidos e apoio de diversos países como Estados Unidos, China e URSS, além de uma intervenção militar direta da África do Sul (CRUZ, 2022).

A intervenção militar sul-africana é considerada uma operação chave para compreender a relevância da intervenção cubana neste contexto pósindependência. De acordo com Piero Gleijeses (2010), após um aumento no contingente de tropas, o exército popular angolano sob comando do MPLA entrou em colapso e o auxílio cubano foi crucial para impedir o colapso imediato do regime controlado pelo MPLA. As tropas sul-africanas se retiraram em março de 1976 (ibid.).

Além de ter contribuído com a expulsão das tropas sul-africanas do solo angolano, a Operação forneceu amplo auxílio técnico e a presença de milhares de profissionais de saúde em um país que, em momento de independência, possuía apenas 90 médicos para um total de 6 milhões de habitantes (CRUZ, 2022). Nota-se que foi apenas em janeiro de 1978 que Cuba começa a cobrar o auxílio técnico e militar entregue à Angola e que, em outubro de 1983, implementa-se ainda uma moratória em pagamentos futuros pelos então 4.168 funcionários cubanos no país para cooperação técnica (GLEIJESES, 2006).

Cuba também foi responsável por auxiliar o MPLA em manter o seu poder quando, em 1977, impediu uma tentativa de golpe de Estado contra Agostinho Neto (BIRMINGHAM, 2015). Ademais, contribuiu para a manutenção do controle do MPLA sobre Cabinda, região estratégica devido à produção de petróleo, fundamental para a sustentação financeira do Estado angolano (MARQUEZ, 1977).

Mantido o apoio durante os anos 1980, Cuba começou a realizar a negociação da retirada de suas tropas de Angola. Suas demandas incluíam a independência da Namíbia e o cessamento de apoio financeiro e militar da África do Sul para o UNITA (GLEIJESES, 2006). Estas negociações perduraram até a Batalha de Cuito Canavale de 1987-1988, um longo conflito que, devido à colaboração militar entre Angola e Cuba, levou à derrota das tropas sul-africanas que haviam iniciado a ofensiva em território angolano (ibid.). Em dezembro, foi realizado um acordo para que a Namíbia obtivesse sua independência, em parte devido às contribuições angolanas e cubanas ao derrotar as tropas da África do Sul (ibid.).

Um pouco após a saída da África do Sul do território, o enfraquecimento do apartheid, a independência da Namíbia e a chegada do Período Especial em Cuba relacionado ao fim da colaboração econômica entre Cuba e URSS, a Operação Carlota chega ao seu fim em 1991, com 2.077 cubanos falecidos em Angola durante todo o período de consolidação de independência e construção de Estado (GLEIJESES, 2006).

A Operação Carlota pode ser compreendida como uma combinação de intervenção militar e cooperação técnica de longo prazo, com impactos diretos na consolidação do Estado angolano e no equilíbrio regional da África Austral (GLEIJESES, 2006). Em relação aos ganhos materiais tangíveis, Piero Gleijeses (2006) afirma que foram negligíveis. Este artigo argumenta que os ganhos com a Operação foram indiretos e possuem uma consequência maior no plano internacional do que um benefício direto e financeiro ao Estado cubano. Além de ter derrotado o exército sul-africano mais de uma vez com colaboração da Angola, ação esta que contribuiu para desmistificar a competência do exército da África do Sul, Cuba foi vista com imenso prestígio internacional, sendo aplaudida em 1976 pelo MNA e, em 1979, Cuba foi o país-sede da reunião da organização e foi chefe da organização até 1983 (GLEIJESES, 2006. PÉREZ JR., 2015).

Em relação a motivação da política externa cubana para a África como um todo, é uma questão debatida na historiografia. Há discussões em torno de um idealismo cubano, do comportamento de Fidel Castro, de raízes internacionalistas na política externa desde 1898 e, também, questões materiais, de defesa, e de alinhamento com a URSS e o bloco socialista como um todo (GLEIJESES, 2006, 2010. PÉREZ, 2019. MARQUEZ, 1977. PRUNELLO, 2017).

Embora este artigo não tenha como foco central o debate sobre as motivações do Estado cubano, é importante deixar claro que Cuba manteve um forte discurso internacionalista durante os anos 1970 e que a política externa cubana não era alinhada, propriamente dita, com os interesses soviéticos, sendo interpretada em documentos de chancelaria do bloco socialista como uma política custosa com as demandas por auxílio econômico e os custos de apoiar o exército cubano em Angola e em outros Estados africanos, sendo, por vezes, percebida como frustrante ou custosa, com alto potencial de “disrupção”, especialmente com o envolvimento posterior de Cuba no MNA (YORDANOV, 2022. GLEIJESES, 2006, 2010. PÉREZ, 2019).

Soldados cubanos em Angola. Fonte: Wikimedia Commons.
Soldados cubanos em Angola. Fonte: Wikimedia Commons.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise da Operação Carlota revela que a atuação cubana em Angola foi decisiva para a consolidação inicial do Estado angolano e, também, para a dinâmica regional da África Austral. Com uma combinação de intervenção militar com cooperação técnica em larga escala, Cuba exerceu um papel que excede o comportamento espero de Estados de menor dimensão relativa no sistema internacional. No contexto da Guerra Fria, esse caso evidencia os elementos de distintos polos e de flexibilidade de atuação dentro do sistema internacional interpretado como bipolar. Cuba, dentro de outros atores, incluindo a China e a Iugoslávia, além de reuniões multilaterais como a UNCTAD, eram capazes de influenciar processos políticos e militares em escala internacional.

Portanto, a intervenção em Angola reforça a necessidade de sempre ampliar o escopo analítico da Guerra Fria para a inclusão de distintos atores para compreender as dinâmicas globais do período.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BIRMINGHAM, David. A Short History of Modern Angola. Oxford: Oxford University Press, 2015.

CRUZ, Jean. Experiencias internacionalistas en la política exterior de la Revolución Cubana. Instituto Superior de Relaciones Internacionales. v. 4, n. 2, 2022.

GLEIJESES, Piero. Cuba and the Cold War, 1959–1980. In: LEFFLER, Melvyn P. WESTAD, Odd Arne (eds.). The Cambridge History of the Cold War, Volume II: Crises and Détente. Cambridge: Cambridge University Press. 2010. pp. 327- 348.

GLEIJESES, Piero. Moscow's Proxy? Cuba and Africa, 1975–1988. Journal of Cold War Studies. v. 8, n. 2, 2006. p. 3-51.

PRUNELLO, Maria Fátima. Un ejemplo de la solidaridad entre los pueblos: Cuba y Angola. Una aproximación al internacionalismo cubano. XVI Jornadas Interescuelas/Departamentos de Historia. Universidad Nacional de Mar del Plata, Mar del Plata. 2017.

PÉREZ JR. Louis A. Cuba: Between Reform and Revolution. 5 ed. Oxford: Oxford University Press, 2015.

PÉREZ, Dariana Hernández. Cuba y las relaciones entre América Latina y el tercer mundo durante la guerra fría: del Movimiento de Países no Alineados a la Conferencia Tricontinental de La Habana (1961-1966). Instituto Superior de Relaciones Internacionales. v. 1, n. 3, 2019.

MARQUEZ, Gabriel Garcia. Operation Carlota. New Left Review, I, n. 101-102, Janeiro-Abril 1977. DOI: doi.org/10.64590/whp.

YORDANOV, Radoslav. Towards a Pax Cubana: revolution, socialism and development in Havana’s Cold War foreign policy. Rev. Bras. Polít. Int., v. 65, n. 1, e004, 2022. p. 1-17.


Comentários


bottom of page